20 de maio de 2022
Um roteiro da vida real

Um roteiro da vida real

Um roteiro da vida real

Imagem: Julio Carioca

Conheça Julio Carioca, um ex-diretor publicitário brasileiro que trocou o a claquete pelo volante de um caminhão no Texas. Ele nos deixou mas sua história vai virar filme na telona.


Na cabeça um emaranhado de pensamentos, em flash, competem com mil raios no horizonte. Engraçado pois não ia mais chover. 

Rabiscos elétricos de todos os tipos iluminam também o teto curvo da cabine: longos, breves, multicoloridos em preto & branco. (sic) Sombra & Luz. 

Lembrou do tempo que tinha produtora de vídeo no Rio de Janeiro, alguma coisa como “Ideia Global”.  

Pré lights, testes de Chroma, contraluzes, rebatedores, fresnell, paus de luz, fotômetros, spotlighs, ringliths do além.  

Pensamentos-corisco zunem desordenados, flashs de memória que agora invadem seu córtex fatigado. 

Tinha guiado por mais de 30 horas sofregamente, compulsivamente, numa sede louca de chegar logo a lugar algum, pois ainda nem tinha alcançado a metade do caminho.  

A segunda noite insone o pegara desprevinido. Mas é bom dormir na boleia depois de um banho quentinho. E saber que falta menos chão pra entregar a carga e pegar o dim dim, em verdinhas. 

Vinha correndo  muito antes  que Papai Noel e seu trenó-caminhão (da coca cola?) cruzasse seu caminho. A troupe iluminescente surge do nada, congestiona as estradas, com seu trenó caravana  todo iluminado.. Ho ho ho… 

É bem comum nesta época os longos caminhões vermelhos da Coca-cola percorrerem as cidadezinhas do interior. A criançada vem toda pro acostamento tirar selfies e ver o bom velhinho passar. Sempre no primeiro “red- truck” vermelho vinha ele, dirigindo o seu caminhão “locomotiva”.  

Pensou em pegar o celular e deixar uma mensagem de final de ano, bem “emotion”. Afinal engatava dezembro e a saudade arretada dos amigos gritava no peito.  

Uma vez videomaker é para sempre. A gente nasce, vive e morre diretor. 

Um comunicador veterano lhe disse um dia, no auge de sua solitária aposentadoria, que o  que mais sentia falta era  meter o dedo no REC  e gritar 3…2…1  gravando. E todos obedecerem. 

O maldito “dead line”. Os prazos. As refações. Os clientes. As campanhas. E se vira nos 30 anos de profissão pra editar, sonorizar, finalizar e entregar tudo a tempo. 

Quantas madrugadas viradas, quantos finais de semana a seco, quantos feriados e aniversários em plena ação? 

 Eis que todos os seus vídeos, promos, teasers, vinhetas e caixinhas de sonhos seguiram seu destino, estão todos no retrovisor da história. E ele agora está só na boleia vermelha. Sorriso amarelo. Fecha os olhos de leve. Solidão. 

Teve um tempo que dirigia com a câmera ligada. Os amigos e a family distante podiam viajar com ele de carona pelos campos, montanhas, superfícies geladas, planícies infinitas, desbravando a gringa, confundindo-se com misteriosas fronteiras, bandeiras e sotaques a granel. 

O caminhão era mais ou menos igual a uma mesa de corte. Aquela em que o diretor de imagens escolhe  a melhor câmera pra por no ar: 

Painel todo iluminado, na madruga, faróis poderosos no luz/contraluz da retina, em vez de roteiro e texto no Teleptomter, notas fiscais e contra-ordens de carregamento. 

Igualzinho às câmeras de vídeo também podia escolher suas telas: Na frente um generoso telão-párabrisas, e na visão da retaguarda, pela grande angular, dois retrovisores redondinhos, mostrando aos apressadinhos, que só dependia dele a sublime decisão de se deixar ultrapassar. Ou não. 

De vez em quando atolava o pé no acelerador, enchia os canecos do motor e jogava o bruto para a esquerda com o giro lá em cima que nem “Speed Racer” ousava peitar. 

Hoje, mesmo sem os fones auriculares havia nos ouvidos um zunido fininho incessante.  Como aquelas TVs de válvula que emitiam um ruído agudo ao ligar.

Tá ficando velho! Engraçado lembrar disso agora.  

Conferiu pela última vez: não, não estava de fone. 

Cenas da família brincavam de ir e vir:Sua mãezinha bem idosa, o mano saudoso , o cachorro com cara de uva-passa amassada,  os parceiros reais e os de coração, lá do Brasil, pipocando cada vez menos . E muito raramente no messager, zap e nas redes sociais, tentando empurrar sua solidão. 

Um belo dia, enfarado de lutar contra o  desmilinguido mercado tupiniquim ele meteu o pé, lacrou  a produtora, a fábrica de sonhos e mirabolâncias no Brasil e veio pro Texas dirigir truck.  E tentar uma nova vida, sem retornos. 

O Brasil do carnaval e do fuzil tinha ficado no retrovisor do tempo. 

Virou de lado. Procurou adormecer. Sorriu. Uma queimação chata no peito. Devia ser cansaço. 

Corta a cena. No outro dia, um rapaz o encontrou sereno, com o motor do truck estacionado, em marcha lenta, e com a máquina do peito parada. Infarto! Levaram pro hospital. Tarde demais.  

O coração do velho diretor não resistiu à tempestade de raios do VT da memória.  

Depois de muito fuçar nas redes sociais, (ele não tinha contatos, nem qualquer referência, estava há milhas e milhas de distância, longe demais das capitais. No rádio do truck os Engenheiros do Hawaii entoavam “Infinita Highway” em um looping interminável.”  

No hospital exigiam alguém da família, em 24 horas, senão ele seria enterrado como indigente de origem não definida.

O amigo que o encontrou estava desesperado. Não é possível que seu fugaz inquilino não tivesse ninguém nesta vida para velar seu corpo.  

Afinal mal o conhecia de verdade. Tinha alugado um quartinho sem janelas duas ou três vezes. E nada mais. 

Mas no roteiro da vida real ainda se produzem milagres e um colega diretor das antigas viu naquela página, quase desabitada, os apelos em busca de parentes. E foi assim que um contato pelo messenger, aos 45 do último tempo, mudou o The End de sua história real.  

Julio Carioca, meu amigo, meu camarada, um guerreiro valoroso e completo! Muito te acompanhei, depois dos estúdios brasileiros, de carona em suas cinematográficas viagens, cruzando os States de cabo a rabo, explorando sua  infinita highway , encarapitado em seu truck vermelho.   

Rasgando uma nova vida. Que agora vai virar roteiro. Mas isso é uma outra história. 

Sua claquete terá sempre a marca da amizade e da resiliência. RIP, meu diretor. (fade Out). 

https://prensa.li/jornalistasonline/um-roteiro-da-vida-real/

Escrito por
Carlos Kober