20 de maio de 2022
Sérgio Moro e o Quixote que nunca leu

Sérgio Moro e o Quixote que nunca leu

Sérgio Moro e o Quixote que nunca leu

beletrismo no Judiciário, e outros segmentos da chamada elite nacional, expõe seus praticantes a ridículos, como o que vem passando o ex-ministro de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, candidato claudicante à dita terceira via.

Na virada do ano, repetiu no twitter uma citação de Cervantes, lugar comum nas redes sociais encontrável em qualquer dicionário ou site de frases feitas. Não sabia que, sempre citada fora do contexto, a frase é um momento histriônico do Dom Quixote de la Mancha, delírio do pobre cavaleiro de triste figura, atormentado por sofrimentos mentais, quando tentava justificar uma série de atos alucinados que prejudicaram todos à sua volta. 

Moro não notou a ironia, quando reproduziu aos seus seguidores uma tradução truncada da frase do fidalgo de Cervantes: “Sabe, Sancho, todas essas tempestades que acontecem conosco são sinais de que, em breve, o tempo se acalmará; porque não é possível que o bem e o mal durem para sempre. Segue-se que, havendo o mal durante muito tempo, o bem deve estar perto”.  

Como integrante ativo da confraria dos diletantes, dou a ele e a quem desejar um conselho gratuito: quando quiser citar uma frase bacana de algum autor, procure, pelo menos, ver o contexto em que ela surgiu (depois, claro, de checar a autoria; até Dostoiévski tem sido citado por aí em texto que jamais criou). 

Num programa de TV, o ex-juiz já havia passado vergonha ao dizer que lia biografias e, em seguida, mostrar-se incapaz de citar algum livro que tivesse lido recentemente. Um bom marqueteiro já o teria aconselhado a deixar de lado a pretensão de mostrar-se como o intelectual que não é. 

A frase bacana de Moro é uma piada; por mais de oitocentas páginas depois dela, as confusões de Quixote e seu escudeiro lhe trarão problemas e pancadas no lombo. Isso porque um dos recursos humorísticos de Cervantes é fazer seu herói proferir frases aparentemente sensatas, em situações desastrosas provocadas por ele, para racionalizar suas ações sem sentido. 

No caso, a frase citada pomposamente é um delírio do maluco Dom Quixote para justificar uma sucessão de trapalhadas. Havia ferido o lábio com o soco de um estalajadeiro ciumento que o flagrou com a amante (uma dama da corte, na imaginação furiosa do Quixote). Apanhou de um grupo de aldeães que havia atacado pensando serem inimigos. E, pouco antes, perdera um bocado de dentes, apedrejado por pastores revoltados com a ideia de jerico do cavaleiro andante, de investir contra um bando de carneiros imaginando combater gente perigosa. 

Moído, vomitando na cara de seu fiel escudeiro o “elixir” que costumava tomar para curar seus males, Quixote diz, no fim, a seus seguidores, ou melhor, a seu único seguidor, Sancho Pança, que não tema, pois nada lhe acontecerá e no fim serão recompensados. É a esperança de Sancho Pança, que, na visionária obra de Cervantes, segue o fidalgo equivocado com a promessa de ganhar, no futuro, uma boquinha num posto público bem remunerado. 

Exatamente essa frase encantou Moro (e muita gente na Internet): uma profecia enganosa de auto-ajuda, dirigida originalmente a um parceiro oportunista meio desconfiado.

No Twitter, Moro foi criticado por usar como modelo um alucinado, sem provas, mas com muita convicção, capaz de ver gigantes ameaçadores onde há moinhos de vento. No livro, o realista Sancho responde ao seu cavaleiro auto-proclamado lembrando que, ainda por cima, em meio às surras levadas por eles, havia perdido seu alforje, onde guardava os mantimentos. 

Dom Quixote, então, desce ao mundo real e, prosaicamente, passa a cogitar um emprego na multinacional que lucrou com a Lava Jato; digo, passa a pensar como farão para arranjar comida. 

Referência bibliográfica

https://prensa.li/jornalistasonline/sergio-moro-e-o-quixote-que-nunca-leu/