20 de maio de 2022
Rosto Negro do Brasil

Rosto Negro do Brasil

Homem de terno e óculos

Descrição gerada automaticamente Oswaldo de Camargo

Parece coisa de samba, mas de fato o Brasil não conhece o Brasil. Pois é, levou avante essa história, Aldir e Tapajós. 

Cabral chegou por cá naqueles 500 anos. Nos perdemos para nos achar em novembro. Novembro pela lembrança da tragédia provocada pelo bandido bandeirante Jorge Velho, que destruiu o Quilombo de Palmares, em 1695. 

Essa história de massacre, nunca, jamais deverá ser esquecida. 

A dívida que o Brasil tem a pagar pra índios e negros quando será paga, hein?

Um estudo sobre a dívida

Estudiosos da vida brasileira se destacaram. Um deles, o paulista de Bragança, Oswaldo de Camargo. Esse De Camargo é um brasileiro de uma grandeza mais do que histórica. Ele pensa Brasil, ele pensa brasileiro. Poeta nas horas vagas, pensador do infinito, é um dos mais ativos militantes dos movimentos negros do Brasil. 

São muitos os livros que já publicou, entre os quais: Um homem tenta ser anjo (1959), 15 poemas negros (1961), O carro do êxito (1972), A Descoberta do Frio (1979).

Dia desse, conversando sobre brasilidade branca e negra, perguntei-lhe sobre a dívida que o Brasil atual tem com índios e negros.  

Em voz baixa, mas firme, ele disse e publico: 

“Nesta altura de minha vida, 85 anos, arranhados por ímpetos de juventude e avisos bem audíveis de decrepitude, ponho-me a inventariar qual a importância do negro, ou melhor, dos negros, na história do nosso País. 

Falo diante do fato concreto e verificável de que sou um negro brasileiro.

Afirmam que nossa história aqui vem desde 1530, como escravizados. E nesse caminho que os compêndios de história registram, apareceu um número razoável de nomes que provam como a aventura humana, mesmo de negros — diria o branco Ocidente — pode ser magnífica. 

Henrique Dias, Padre José Maurício, Chiquinha Gonzaga, Luiz Gama, Cruz e Sousa… (Recorra-se aos compêndios, frios e burocráticos, geralmente; lá se aprende). 

Fato é que, no meu ver, um dos dramas do País, desde muito, é a humanidade negada ou mal percebida do negro brasileiro. Não se notou, ou se fez o máximo para impedir o fulgor da alma do negro sobre o seu corpo, como se lê em verso de um poeta nosso. 

As marcas que o africano deixou, visíveis na dança, na culinária, na religiosidade, nos gestos, na fala, no afago, estão aí. 

Em nosso livro O Negro Escrito — Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira, acentuamos, sobre o passado:

‘Negros para mourejar em canaviais, no eito, em conventos, em engenhos, ‘escravos de ganho’, moleques em seus misteres de utilidade prática e já rendosa, treinando para ‘bons escravos’, isso foi o povão negro que se ia espalhando pelo mapa do incipiente Brasil.’ 

Certo é que o País, a par de sua feição herdada sobretudo do Ocidente, marcou-se e continua se marcando com a existência cada vez mais crescente de negros, na concretude do corpo. 

Cinquenta e cinco por cento da população… 

Mas, quando se vai reconhecer, em todos os negros, a sua plena humanidade? 

Repete-se a história: em séculos passados, sobretudo no XIX, negros , poucos, despontaram e são testemunhados em compêndios e livros de História.

Hoje, negros ainda continuam despontando, em número incrivelmente irrisório. Quando se poderá ver em todos os negros, pardos e mulatos a sua plena humanidade, dando aval à nossa verdadeira democracia? 

No entanto, o negro continua marcando o rosto do País… 

Que rosto?”

Escrito por
Assis Angelo