25 de maio de 2022
Quem vai pagar a conta?

Quem vai pagar a conta?

Quem vai pagar a conta?

Hanna Morris/Unsplash

Entra ano e sai ano, entra crise e sai crise, entra pandemia e sai pandemia, o fato é que os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. Qual é a mágica que permite que um número ínfimo de pessoas concentre tanto poder e dinheiro, enquanto os 8 bilhões restantes continuam batalhando pela sobrevivência?   

Segundo o professor Márcio Pochmann, da Unicamp, “A globalização vem ocorrendo desde 1980, e os países têm que aceitar um jogo de cartas marcadas. São 170 corporações mundiais que controlam esse sistema”. Apenas 170! 

Pochmann destaca que essas grandes corporações são as responsáveis pelo aumento da desigualdade no mundo. “Elas priorizam pagar menos impostos, por isso deslocam suas sedes para paraísos fiscais, focam nos países em que podem flexibilizar as condições de trabalho”, acrescentou.

Em vez de empregos dignos, o que se amplia é a terceirização e a precarização, o que cria a ilusão de redução na taxa de desemprego. “E a ideia de uma globalização inevitável faz com que os países se acomodem”, afirmou o economista. 

Bilionários x 10 reais 

A concentração do capital (leia-se dinheiro) é também privilégio de um pequeno exército de eleitos: 2.750 bilionários detém um patrimônio de R$ 13 trilhões de dólares. Outros 56 milhões são apenas milionários e, pela primeira vez na história, representam mais de 1% da população mundial, estimada em 7,9 bilhões de pessoas.  

Enquanto os ricos enricam, os pobres empobrecem. Mais de 780 milhões de pessoas vivem na linha de Extrema Pobreza, com renda média de U$ 1,90/dia, ou seja: pouco mais de 10 reais/dia. 10 reais/ por dia!  

Não por acaso, este mesmo contingente de pessoas convive com inúmeras limitações estruturais como a falta de saneamento básico, saúde pública, educação, moradia digna e renda, sofre também os impactos da fome. A África, onde 21% da população passa fome, é um dos continentes mais afetados por este drama. Drama que poderia ser facilmente atenuado, segundo relatório do Programa Mundial de Nutrição e Segurança Alimentar da ONU, com um investimento pífio de 7 bilhões de dólares.  

Pergunto: perto do patrimônio dos bilionários, dos milionários e das corporações que controlam a economia do planeta, o que representam 7 bilhões de dólares, comparados aos benefícios que esse dinheiro proporcionaria a centenas de milhões de pessoas?   

O polêmico Elon Musk 

É fato que a prática da filantropia é bem antiga.

Em essência, é a estratégia que os ricos usam para atenuar sua imagem perante o público. Porém, não podemos subestimar os bilionários, pois assim como descobrem fórmulas mágicas para turbinar negócios e engordar sua riqueza, também encontram válvulas de escape para fugir da responsabilidade.

Uma dessas mentes criativas é Elon Musk, que pratica o que Benjamin Soskis do Urban Institute define como “Filantropia Troll”, que é a estratégia que o bilionário criou para justificar sua postura pessoal diante deste tema. Para Soskis, Musk não está preocupado com o que o público pensa dele, aliás “parece até se divertir com a imagem de filantropo que antagoniza com o público”.  

Na era das fakenews, é sempre bom separar a versão do fato. Em 2002, Elon Musk criou uma fundação e se comprometeu, conforme destaca o site da instituição, a doar metade de sua fortuna até 2012. Até o final do ano fiscal de 2020, a fundação havia acumulado fundos de um bilhão de dólares e havia investido pouco mais de US$ 25 milhões em algumas instituições americanas. 

A filantropia Troll e outros fatos sobre o tema foram destaque numa matéria do New York Times do último dia 10/12, assinada por Nicholas Kulish, onde ele resgata as origens da filantropia e como alguns bilionários se comportam diante dela, em especial a postura controversa de Musk.

Na matéria, Homi Karas do Brookings Institute de Washington, esclarece que “a ideia de uma única pessoa ter o poder de interferir em escala global é um fenômeno recente” e tem a ver com a globalização. Porém, para sustentar uma economia mundial globalizada, “o crescimento precisa ser mais inclusivo”, finaliza Karas. 

Há riqueza na base da pirâmide

Do outro lado desta fotografia está a tese do professor C.K. Prahalad, da Universidade de Stanford, exposto no livro A Riqueza na base da pirâmide, publicado 2012. 

Para ele, as corporações subestimam a relevância das pessoas que compõem a base da pirâmide populacional que é a maior parcela da população mundial. A par da pobreza, da baixa renda e de outras condições limitantes, trata-se de um representativo contingente de consumidores regulares de produtos baratos. Consomem uma ou duas unidades de determinado produto e são capazes de gerar um volume de vendas assustador para uma empresa de varejo tradicional, tendo em vista o universo de consumo que representam. 

Prahalad cita exemplos na Índia, na China e no Brasil que sustentam a tese de que esta população consome pouco em razão da renda, mas consome sempre.  

Portanto, é preciso atentar para este potencial incubado, que algumas empresas já começaram a explorar, colocando em prática alguns princípios básicos para estar presente nestes mercados. Entre eles, oferecer ótimo custo benefício e não subestimar o fator tecnológico. 

São mercados gigantescos que exigem soluções escaláveis e logística eficiente, embalagens práticas, UX rigorosa para garantir um produto adequado ao perfil do consumidor, demonstrar as novas funcionalidades antes do produto chegar na loja, inovação recorrente de produtos e processos.  A interface deve ser amigável para não inibir nem frustrar o cliente, adequar as plantas industriais ao perfil da  mão de obra local e o produto deve ser resistente a ambientes hostis (oscilação de voltagem, poeira, etc).  

Resumo da ópera: há luz no fim do túnel

O preço da solução não ameaça o lucro das corporações e nem o patrimônio dos bilionários. Ao contrário, como demonstrou Prahalad, pode até engordar o caixa, mas é preciso colocar a mão no bolso. É aí que o bicho pega, pois ricos – com raras exceções –são mesquinhos. Defendem as práticas dos ODSs e da ESG dentro das quatro paredes das organizações, mas não se sentem responsáveis pelo que acontece fora do bunker.

Os governos, como afirma o professor Pochmann, estão acomodados e não têm recursos próprios para minimizar o drama.  

Os ricos e as corporações precisam entrar em cena.  

Resta saber se os atores se dispõem a pagar a conta para ver um outro filme.

https://prensa.li/jornalistasonline/quem-vai-pagar-a-conta/

Escrito por
Ricardo Mucci