20 de maio de 2022
Guedes infantiliza discussão sobre queda do PIB

Guedes infantiliza discussão sobre queda do PIB

Crédito: Orlando Brito

Ao explicar o mau resultado da economia no terceiro trimestre deste ano, o governo ensaiou botar a culpa no clima, que teria atrapalhando agricultura e indústria e brecado o país. A crise hídrica, de fato, aumentou custos de energia e prejudicou plantações. A agricultura, um dos motores da economia engasgou também com o corte em encomendas da China e aumento nos preços de insumos. Mas, como já faz com o debate político, com discussões estéreis até sobre o formato do planeta, o governo tenta infantilizar o debate.

Com a discussão tola sobre se os indicadores revelam recessão ou não, a equipe de Bolsonaro se cala sobre problemas econômicos ainda sem solução agravados por esse PIB baixo. Estes sim, vão azedar o clima nas casas brasileiras.

O ministro da Economia, Paulo Guedes apela para lorotas. Na manhã em que anunciaram a queda de 0,1% no PIB dos últimos três meses, disse, sem corar, que não havia indicações de recessão porque a Bolsa de Valores, confiante, não estava caindo; subia 3% naquele dia. Chegou a 3,7%. 

O ministro Paulo Guedes não é bobo, mas acha que seus interlocutores são.

Raposa de mercado, ele sabe que expectativas de ganhos de curto prazo moveram a Bolsa – que, na véspera, havia caído para o menor patamar do ano, com as notícias de novas variantes do vírus COVID-19 e problemas do governo no Congresso.  No dia 3, já voltava a cair. A Bovespa, em 6 de junho, havia alcançado 130,8 mil pontos; em 2 de dezembro, fechou em 104,5 mil pontos. Mais de 20% de queda, no índice que reflete o movimento das ações. 

É, de longe, um dos piores resultados entre os países emergentes

Guedes recebe regularmente o Boletim Focus, do Banco Central, com previsões do mercado. Tem caído, toda semana, a expectativa de crescimento em 2022: a maioria dos analistas previa 1,4% de aumento em outubro; hoje, já aposta que o Brasil deve crescer menos de 0,6% no ano que vem, uma estagnação, na prática. No dia 3, o IBGE anunciava que a produção na indústria havia caído em outubro, pela quinta vez consecutiva, e ficou em quase 8% menor do que em outubro do ano passado.

Quando Guedes comemora o aumento dos empregos, deixa nas sombras a triste verdade: são empregos de menor salário e precários (menor poder de consumo, portanto), no comércio e nos serviços que ensaiam uma volta às atividades depois da parada forçada pelo Covid-19. O surgimento de variantes ameaça essa retomada, assim como as incertezas de 2022, com as contas do governo desmoralizadas pelos arranjos feitos para pagar o novo auxílio oficial aos pobres, e a campanha eleitoral, que promete ser violenta.

A inflação, impulsionada pela alta do dólar, é agravada pela falta de produtos de consumo de massa, com a substituição de alimentos tradicionais (feijão, milho) pela plantação de soja para exportação e a internacionalização do mercado de carne, entre outros fatores.

Como o governo vai equilibrar a necessidade de gerar empregos com a previsível ação do Banco Central, subindo juros para atacar a alta dos preços? Como vai recuperar a credibilidade das contas públicas, hoje remendada com gambiarras fiscais e sob ataque do Centrão que dá apoio político ao governo? Como vai evitar que os empresários adiem investimentos, retardando a criação e empregos e renda, com essas incertezas e um Bolsonaro disposto a tudo, sem pruridos em violar compromissos de seu ministro, na briga para se reeleger? 

Fazendo malabarismos com números, o ministro dribla as questões e fornece material para a máquina governista geradora de memes e textos pueris nas redes sociais. Mas quem espera clareza de direção para decisões no setor privado não é criança. 

Se Guedes engana a alguém, além dos eleitores fanáticos do chefe, é a si mesmo.

https://prensa.li/jornalistasonline/pib-do-terceiro-trimestre-de-2021-tem-resultado-ruim/