19 de maio de 2022
Os intestinos do governo

Os intestinos do governo

Os intestinos do governo

O mais recente espetáculo de nonsense exibido pelo presidente do Brasil, com seu inescapável pendor ao escatológico, tem levado um grande número de seres pensantes a explosões de ira e desalento. Quase sempre, tais manifestações arrastam as conversações nas redes sociais, nossa Ágora contemporânea, para a mesma tubulação de onde provém a indignação: o esgoto da civilização. 

Não é mera coincidência que o chefe do Executivo tenha utilizado um episódio de constipação intestinal para encobrir o mais recente de seus atos insanos: a negação da vacina anti-Covid à população infantil. Desde que se apresenta como figura pública, é no trato digestivo que esse indivíduo se inspira ao elaborar suas expressões, em temas tão diversos como política, economia ou saúde pública. 

Trata-se, não apenas, de uma compulsão pela escatologia, em seu duplo significado – o da ciência dos excrementos e o significado religioso, que cuida da morte e de um suposto mundo pós-morte. Essa fixação de Jair Bolsonaro pelo que se processa no extremo do tubo digestivo e no extremo da vida tem uma estreita relação com Política e Economia, assim em letras maiúsculas. 

O Brasil não é o Chile

Bolsonaro é o resultado de um projeto fascista de poder, como se disse em muitas ocasiões. Mas é preciso pontuar que, como todo projeto de poder, ele se fundamenta no jogo dos interesses econômicos.

O atual presidente do Brasil foi instalado no Palácio do Planalto como porta-estandarte de um dos mais espetaculares e ousados movimentos do conjunto de interesses abrigado na ideia genérica do neoliberalismo. Este, que nada mais é do que a melhor e talvez a última oportunidade do capital rentista de fincar raízes num país de importância vital na consolidação da economia globalizada. 

O Brasil se tornou o eixo central de uma transição histórica que deixa para trás um conceito ultrapassado de indústria, de relações negociais e de valor econômico, arrastando nessa enxurrada a educação tradicional, a arte, as relações sociais e as interações entre os indivíduos.

Por que o Brasil? – Porque é único em condições histórico-políticas, em circunstâncias demográficas e em estrutura social onde se pode realizar um experimento dessa escala. 

O Chile, onde no final do século passado se experimentou um projeto fascista semelhante, conseguiu romper a cadeia de manipulações porque possui uma população muito menor, menos diversificada etnicamente e com uma economia muito menos complexa. Mas não é mero acaso que um dos operadores do fascismo econômico naquele país seja o mesmo brasileiro que aceita manipular os dejetos do governo Bolsonaro e lhes imputar algum valor. 

Por que os esgares escatológicos de Bolsonaro têm uma relação com a escatologia fisiológica? – Porque ele claramente enxerga na atividade política (assim com letra minúscula, que representa o rés-do-chão em que sempre militou como parlamentar) o processo de pressão e alívio, pressão e alívio, como os movimentos peristálticos. Lá no fim desse tubo há de sair sua obra. 

E qual a relação da política de Bolsonaro com a escatologia na tradição religiosa? – Ele é adepto de uma teoria do fim do mundo que tem duas vertentes: a neopentecostal e a militar. Na teoria militar do fim do mundo, adotada pelo grupo de oficiais brasileiros que se opuseram ao processo de redemocratização no início dos anos 1980, vislumbra-se a ideia de uma sociedade homogênea, “pura”. Patriótica no sentido restrito daqueles que se regozijam no império da ordem. 

Na escatologia religiosa, encontrada principalmente nas vertentes neopentecostais que se expandem no Brasil em torno da “teologia da prosperidade”, o presidente preconiza a tese de que é preciso levar ao juízo final os que eles consideram inimigos da pátria: indivíduos progressistas, defensores de uma ampla equanimidade social e do direito a uma vida de bem-estar sem exclusões. 

Como na escatologia fisiológica, essa escatologia religiosa ou mística também tem seu esfíncter, onde tudo termina: ambos os grupos adorariam eliminar aqueles que consideram seus inimigos – os contemporâneos. Ou seja, as pessoas que respeitam a ciência sem desprezar o mistério, que acompanham com estranheza mas sem medo a evolução da humanidade, sua História, e, principalmente, que reservam entre suas convicções a possibilidade de uma utopia. 

Trevas e luzes

As constantes obstruções intestinais do presidente são mais do que metáforas – são manifestações físicas de sua angústia existencial essencial: as demonstrações de uma realidade que insiste em desmentir suas crenças, as evidências de que a sociedade está disposta a interromper o experimento fascista. 

Essa é a questão que deveria estar mobilizando as opiniões no campo da sociedade onde prevalecem os valores civilizatórios. Ira e desalento não compõem um bom conjunto de sentimentos a inspirar a ação política necessária. Como diz o filósofo italiano  Giorgio Agamben“o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”

PS.: e que lança sobre as trevas a luz da ciência.

https://prensa.li/jornalistasonline/os-intestinos-do-governo/

Escrito por
Luciano Martins Costa