20 de maio de 2022
O vírus ‘diplomata’

O vírus ‘diplomata’

O vírus 'diplomata'

Médico vetor criado por pikisuperstar – br.freepik.com

Com o Brasil acumulando 630 mil mortos pela Covid-19 desde 2019, e o mundo 5,5 milhões de seres humanos que deixaram de respirar, Sua Excelência realiza mais uma façanha grotesca, que a História (assim mesmo, com agá maiúsculo de Humanidade) jamais deixará impune.

Tornar-se o primeiro (e até agora único) chefe de Estado a dar, solenemente, boas-vindas à chegada de um vírus ao Brasil, a nova cepa Ômicron do Coronavírus. Mas, Sua Excelência avança e “diz que dizem” tratar-se de um “vírus vacinal” e que o Brasil está sendo curado pela “imunidade de rebanho”. 

Autoridades políticas e sanitárias de todo o globo terrestre devem estar curiosas sobre essa definição de “vírus vacinal”, já que o vírus é uma coisa e a vacina outra. A vacina tem vírus morto ou atenuado, em suspensão, com objetivo de formar anticorpos no organismo infectado. Um “vírus vacinal” talvez seja (isso a Excelência não explicou) um Corona pós-graduado em Diplomacia Sanitária.  

Viajando nas gotículas de alguma tossida, espirro ou escarrada, antes de entrar no seu corpo ele deve ter um comportamento cheio de etiquetas e se apesentar: “Com licença: eu sou um Ômicron, um dos netos do Coronavírus e gostaria muito de deixar você imune nessa pandemia. Será que poderia me conceder tal honra, tal distinção?” E aí, você, achando que ele é “vacinal” mesmo, larga a máscara, esquece a dose de reforço, a higiene simples das mãos e o álcool em gel e se entrega. Vira gado…  

Cuidado, é mito…A verdade é que o danado infecta e mata. Talvez esse Ômicron “vacinal” de Sua Excelência possa apenas estar repetindo o modelo apresentado a ele em Brasília, o de dizer uma coisa e fazer outra. “Vacinais”, de verdade, contudo, são os ancestrais do Ômicron, hoje parte de alguma AstraZeneca, CoronaVac ou Pfizer-Biontech imunizando cidadãos e cidadãs conscientes, que respiram e ajudam a respirar melhor mantendo o respeito às normas de Saúde Pública e ao que diz a Ciência.

Sobre a declaração de Sua Excelência, uma das primeiras reações foi a do diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan“Não é hora de declarar que esse é um vírus bem-vindo. Nenhum vírus que mata pessoas é bem-vindo. Especialmente quando essa mortalidade e esse sofrimento são evitáveis com o uso apropriado da vacinação”declarou

A OMS ainda fez questão de criticar narrativas que possam favorecer a circulação da Ômicron, como forma de garantir uma imunidade coletiva. “Essa variante não será a última”, insistiu Bruce Aylward, responsável por vacinas na OMS. Segundo ele, quem deixar o vírus circular vai pagar um preço e governos precisam continuar a pedir que as populações usem máscara e mantenham medidas de proteção. “Temos de fazer tudo o que for possível para desacelerar”, afirmou. 

Isso, sem contar o estrago simultâneo que o “bem-vindo” produz paralisando serviços, em razão da alta taxa de contágio que atinge de aeroportos a hospitais, profissionais das áreas essenciais com risco de paralisação. A disseminação da variante Ômicron, já no final de 2021, pela OMS, um “tsunami de casos de Covid-19″.

Nos países mais atingidos no final do ano passado, setores da economia estavam sofrendo interrupções devido ao afastamento de trabalhadores infectados. Os serviços essenciais, como os de saúde, são os que mais preocupam as autoridades mundiais. 

Agora, apenas para concluir, diante do vexame de exaltar um vírus, cuja missão só se pode dizer assim, é infectar e matar, não é demais lembrar Sua Excelência – nesse cenário pandêmico, asfixiado, sufocado, enforcado por tanta notícia falsa e hipocrisia -, de uma máxima atribuída ao pensador Ralph Waldo Emerson. Ele garante que “sucesso é saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu”.    

https://prensa.li/jornalistasonline/o-virus-diplomata/

Escrito por
Pedro Fávaro Jr