25 de maio de 2022
O país-fetiche

O país-fetiche

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Sigmund Freud, por Max Halberstadt, em 1922

O Brasil vive em estágio avançado de alienação, e uma das principais evidências dessa ruptura é o fenômeno do fetichismo, pelo qual muitos protagonistas da política passam a viver numa realidade paralela

Em 1927, Freud dizia em um artigo (“Do Fetichismo”) que o fetichista nega ser verdadeiro aquilo que o angustia, mas que, no fundo, sabe que é verdadeiro. Um aspecto interessante, sobre o fetiche como anomalia, se refere à possibilidade da coexistência de duas atitudes – a recusa da realidade e sua aceitação pela mesma pessoa em relação a circunstâncias muito específicas.

Há um enorme sofrimento quando, com a dissociação do ego, o indivíduo, mesmo conhecendo o real como tal, inconscientemente recusa essa realidade percebida. Essa reflexão, aparentemente desconectada de questões como política e economia, oferece uma perspectiva interessante para o entendimento da crise brasileira.

A análise do fetiche, como forma de defesa, talvez seja, mesmo, a melhor abordagem para uma análise do contexto político, econômico e social que enfrentamos nesta segunda década do século 21. No mínimo, oferece uma janela de onde se pode descortinar com clareza aquilo que aos olhos críticos tem sido interpretado como uma síndrome de insanidade.

Estamos insanos?

Em sentido figurado, não em termos médicos, tal síndrome se revela por um conjunto de sinais, eventualmente contraditórios entre si, que numa circunstância crítica podem despertar insegurança e medo. Por isso, se observarmos o comportamento do presidente da República, seus filhos e apoiadores, e, no círculo mais amplo, a pusilanimidade de protagonistas importantes da cena pública, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, destacados representantes dos poderes Judiciário e Legislativo, comandantes militares, empresários e controladores da mídia hegemônica, aquilo que parece loucura pode ser mais bem compreendido se observarmos pela lente do fetiche.

Essa abordagem também nos ajuda a superar a dicotomia esquerda-direita como padrão, para analisar em detalhes mais sutis as visões de mundo radicalizadas e aparentemente inconciliáveis sobre como deve se organizar o país e, mais amplamente, a sociedade humana como um todo.

O fetiche pode afetar tanto aqueles que se posicionam “à direita” como os que se consideram “à esquerda” do espectro político, porque produz um distanciamento da realidade, por si mesma difícil de ser enquadrada racionalmente em sua complexidade. 

Como o protagonismo político se apresenta doloroso demais para quem tenta se aproximar do real, temos uma sociedade enferma desse fetichismo que beira a insanidade.

Mas há também um espaço onde atuam aqueles que, encarando a realidade presente, contraditoriamente tentam modificá-la. Entre estes há os conservadores, que olham para trás e desejam um retrocesso aos “velhos bons tempos”. O outro lado é o dos progressistas, que são, na essência, liberais em relação ao convívio  social, à evolução do conhecimento, a normas econômicas que contribuam com o chamado processo civilizatório. Essa porção da sociedade se move constantemente contra a muralha do fetichismo, que recusa a realidade.

Bolsonaro, fetiche pelo poder

O próprio presidente da República, mas não apenas ele, vê o cargo de que foi investido em janeiro de 2019 como um fetiche – o fetiche de um poder que não é admitido nas normas constitucionais e num consenso ético possível, o fetiche de um poder que não é contemplado pela realidade.

Um dos problemas de um governo fetichista é que se torna incapaz de governar, porque seus agentes não enxergam o país real e o mundo real: seu fetiche é uma sociedade ordenada, amorfa, assexuada e homogeneamente assombrada por tudo que representa a natureza da comunidade humana, com sua diversidade, sua imprevisibilidade e seus riscos.

Os militares, de modo geral, se encaixam nessa contrafação fetichista de governo porque é da natureza da vida na caserna estar defendida da dinâmica social. Para ser um bom militar é preciso aceitar que sua vida seja dirigida de cima para baixo, por uma patente superior que, na lógica do sistema, sabe mais sobre a realidade. O momento supremo da vida militar é a ordem unida.

Uma sociedade civil, com toda sua assustadora complexidade, é o inferno para o fetiche da homogeneidade e a ordem.

Como solucionar esse conflito?

Não há outro remédio contra o fetiche a não ser a própria realidade. Contra o governo-fetiche e o veneno do fetichismo que corrói a sociedade, só funciona a imposição da lei, o choque provocado pela oposição da ordem legal contra o desejo do ego conturbado pela visão distorcida da realidade. 

É o que sugere ter atingido, por exemplo, a ex-ativista de extrema direita Sara Fernanda Geromini, que ao deixar a militância após um período de prisão, acusa o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, de ser o principal instigador de atos contrários às instituições da República.

Não existe a possibilidade do diálogo entre o interior e o exterior do campo do fetiche, justamente porque os agentes da negação da realidade estão presos em seu casulo, e as instituições funcionam no campo aberto das interações sociais. Os interlocutores dos dois lados se encontram em territórios apartados, como se fossem habitantes de universos paralelos.

Por isso, não funciona dizer a um fetichista que o blog Xis ou o canal Ípsilon contém mentiras ou meias-verdades. 

Ele só vai romper o casulo quando sentir sobre si o peso da lei.

Bibliografia:

FREUD, S. (1996). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. ______. (1905) Três Ensaios Sobre Sexualidade. Rio de Janeiro. Imago, 1996. ______. (1927) Fetichismo. Rio de Janeiro. Imago, 1996. ______. (1940 [1938]) Esboço de Psicanálise. Rio de Janeiro. Imago, 1996.

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Escrito por
Luciano Martins Costa