20 de maio de 2022
O Natal do Luto

O Natal do Luto

O Natal do Luto

Foto: Orlando Brito

Os órfãos da Covid, os desempregados e os trabalhadores sem salário nem aposentadoria são a joia da coroa do atual governo.

O Brasil terá neste ano seu Natal do luto. Para centenas de milhares de famílias, para os milhões de brasileiros que perderam parentes e amigos, para outros milhões que ainda se recuperam de sequelas da Covid-19, este será o Natal incompleto, o Natal em que a alegria da festividade será acompanhada pela sombra da dor, pelo peso da ausência e das impossibilidades.

Será um Natal especialmente doloroso para as crianças que perderam ambos os pais, ceifados pela pandemia. São quase 290 mil os órfãos brasileiros da Covid, segundo pesquisa do Imperial College de Londres, vítimas quase ocultas pelas estatísticas de números grandiloquentes e pelo embate entre a informação científica e a profusão de mentiras que escondem a realidade.

No Brasil, a tragédia dessas crianças e adolescentes se agrava pela falta de instituições qualificadas em número suficiente para abrigar e aliviar essa dor, para lhes dar uma oportunidade de ressignificar suas existências, agora sem a presença de seus genitores.

Como lembra o desembargador Luiz Carlos de Barros Figueirêdo, de Pernambuco, o Brasil precisa alterar urgentemente os protocolos de adoção, para atender essa demanda emergencial. Crianças desamparadas são alvo fácil para predadores.

Até a segunda semana deste mês natalino, apenas os nove Estados do Nordeste e as cidades de São Paulo e Campinas tinham aprovado a criação de políticas de assistência a menores de dezoito anos alcançados pelo luto. Mas não se sabe em que condições, com que critérios é provido o acolhimento previsto na lei, porque também o Suas – Sistema Único de Assistência Social, abrigado no Ministério da Cidadania, vem sofrendo com a dilapidação da estrutura de saúde e bem-estar da população vulnerável.

Laços rompidos

Nossas mentes racionais têm dificuldade para individualizar os dados estatísticos e penetrar na realidade concreta que os números expõem. Os números chocam, mas não alcançamos o sofrimento de cada um, não somos capazes de mensurar o que é a escuridão que repentinamente se abate como proposta de futuro sobre esses pequenos brasileiros.

Eles se juntam aos filhos de trabalhadores que, sem renda constante, também têm diante de si apenas a desesperança. Entre estes, observa-se claramente o impacto das diferenças étnicas que erguem outros muros entre os muros da desigualdade.

Essa desigualdade estrutural está bem retratada pelo IBGE na “Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2021”, que, embora não traga os dados deste ano, exibem para quem queira conhecer a realidade nacional como se aprofunda a degradação da nossa sociedade.

Vitrines envergonhadas

O Natal de centenas de milhares de famílias será o Natal das ausências, mas será também o tempo da reflexão: por que o Brasil se deixou levar para esse abismo escuro? Onde se romperam os laços da sociedade com sua humanidade? Será o Natal em que milhares de crianças brasileiras não vão ansiar pela chegada do Papai Noel. Vão esperar papai e mamãe, alguém que não vai chegar.

Depois deste Natal, que sentimentos ainda poderão brotar às vésperas de um novo ano, em que provavelmente as cepas dominantes do vírus irão propor à humanidade um armistício, uma forma de coexistência com menos letalidade? O que esperar de uma nova endemia, num país cujo sistema público de saúde vem sendo dilapidado por quem deveria protegê-lo?

E o que fazer com o governante que não perde oportunidade para espicaçar ainda mais essas feridas, para manifestar o orgulho de sua estupidez a cada fato ou boato que ameaça seu desejo de reeleição?

Um país com enormes carências e abissal desigualdade social não tem tecido para suportar um governo que o empobrece, nem arcabouço para carregar uma elite individualista, sem sensibilidade social e disposta a acumular riqueza às custas do retalhamento e privatização dos bens do Estado e desmantelamento do que havia de distribuição do bem-estar.

Os desempregados, os servos da empregabilidade sem futuro e os órfãos da Covid-19 são os símbolos deste Natal miserável que envergonhadamente pisca-pisca nas vitrines impossíveis.

https://prensa.li/jornalistasonline/o-natal-do-luto/

Escrito por
Luciano Martins Costa