19 de maio de 2022
O maestro que jamais morrerá!

O maestro que jamais morrerá!

Quando a querida Sylvia Jardim me pediu para escrever este artigo, minha ficha não tinha caído. Era muito cedo para entender uma perda tão gigantesca.

Como assim, Letieres? Maestro, você se foi? E a nossa amizade? E as nossas trocas intelectuais? Quem vai fazer as perguntas sem respostas? Quem vai me botar pra cima como uma catapulta? Onde você foi? Por que foi tão cedo? Penteou o cabelo? “Claro que não. Pra quê? Não tenho tempo a perder”, você ia responder em tom de ironia.

Subverter regras. Você já nasceu assim. Letieres dos Santos Leite foi o único dos oito filhos de seu Antônio Letieres Leite que não recebeu um nome. Foi registrado com o sobrenome da família como nome próprio. Ele achava graça da decisão do pai.

Descobriu a vocação para a música quando estudava na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Se os acordes entraram na sua vida por acaso a evolução foi planejada.

O mergulho foi na terra de Amadeus Mozart e Johan Strauss. Durante seis anos se dedicou aos estudos no Franz Schubert Konservatorium, em Viena. A partir daí, nem o céu era seu limite.
O palco era seu templo!

Com a bagagem carregada de projetos, voltou ao Brasil e criou a Academia de Música da Bahia, escola com foco no ensino da música da terra de todos os santos.

Sabia que era um ser diferenciado. Pequeno na altura e gigante na forma de pensar e agir. Como diz Caetano Veloso, “um papo com Letieres não era uma conversa, mas uma aula”. Às vezes, a velocidade do pensamento atropelava a fala. Eu dizia: “não entendi, maestro”. E ele voltava ao começo, não sem antes chamar minha atenção. Uma taça de vinho, e lá estávamos nós na arena, debatendo e discordando outra vez.

Debater ideias com Letieres não era uma tarefa fácil. O maestro genial tinha temperamento forte, típico dos filhos de Xangô, orixá que tem sede de justiça.

A busca incessante pela partilha o levou a criar, em 2006, a Orkestra Rumpillez, mais um trabalho inovador com a marca LL. Assistir a um ensaio não dava a dimensão do que o maestro estava conspirando. Vê-lo reger era excitante. Ao mesmo tempo que comandava, ele tocava e dançava.

Sim, Letieres era o maestro dançarino. Dizia que a música não existia sem a dança, pra ele, o casamento perfeito.

Casamento que também viveu com o Candomblé, fonte onde foi buscar nas batidas dos atabaques o som que inspirou o desenvolvimento do Universo Percussivo Baiano (UPB), um método de ensino com fundamentos nas músicas de matriz africana, uma explosão de criatividade que o mundo se curvou.

A responsabilidade de Letieres Leite no trato da música o levou a parcerias com grandes nomes da MPB como Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo. Entre os últimos trabalhos estão os arranjos do show Claros Breus, de Maria Bethania, assim como o CD Mangueira – A Menina dos Meus Olhos.

Compositor, produtor musical, educador e pesquisador, multi-instrumentista, maestro de tantas vidas, Letieres se preparava para mais um desafio: levar o Instituto Rumpillez para a terra da garoa. Não deu tempo.

Mas sua obra é inesquecível. Seu legado será preservado por seus seguidores. Sementes como o Rumpillezinho, seu Laboratório Musical de Jovens, serão regadas até que os frutos possam ser espalhados aos quatro cantos.

Como você pregava, a música salva vidas! E você salvou muita gente com a sua música. Agora está ao lado do seu ídolo Moacir Santos, com certeza regendo e dançando.

E no dia 8 de dezembro, quando você completaria 62 anos, vamos acender velas para Nossa Senhora da Conceição, sua santa de devoção.
Os atabaques vão silenciar.

E nós vamos render todas as homenagens ao maestro que jamais morrerá!