19 de maio de 2022
O fator Simone Tebet

O fator Simone Tebet

O fator Simone Tebet

Imagem: Programa Roda Viva/TV Cultura.

Logo que a senadora Simone Tebet (MDB-MS) anunciou a pré-candidatura à Presidência da República, seus pares no Congresso Nacional, bem como os analistas políticos de plantão, reagiram com a afirmação de que “ela só está tentando se viabilizar como vice de algum candidato”. 

Uma demonstração clara de que o machismo e a política andam de mãos dadas, pois tal raciocínio remete à inviabilidade precoce de sua candidatura. Provavelmente, esta visão seja fortemente contaminada pela gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, punida com o impeachment por conta de “pedaladas fiscais’, uma prática comum que não afetou outros gestores públicos, mas para ela foi fatal.

Neste artigo, faço uma análise da candidatura de Simone Tebet à luz da realidade brasileira, onde os pré-candidatos postos até o momento representam pouco ou nenhuma novidade para o eleitor e ela, é sim o fato novo da eleição. Uma eventual 3ª via como a imprensa tem classificado o candidato que corre por fora do duelo entre o ex-presidente Lula e o presidente Jair Bolsonaro, que hoje lideram as pesquisas de intenção de voto.  

Os pré-candidatos 

Ainda não temos o número exato de pré-candidatos à sucessão de Bolsonaro, mas alguns deles são conhecidos de longa data. Outros estão se aventurando por conta de uma projeção midiática eventual e há os candidatos emergentes, desconhecidos do eleitor.  

Lula 

O ex-presidente Lula lidera as pesquisas eleitorais até o momento com 45% das intenções de voto, segundo levantamento do Instituto Quaest. Lula, sem dúvida, deixou um legado de realizações, em especial na área social. Uma vantagem que inibe o crescimento de seus concorrentes diretos.

Ainda que muitos tenham se decepcionado com as mudanças estruturais que ele poderia ter implementado como um dos presidentes mais populares do país, Lula está no crédito. Errou ao indicar Dilma Rousseff, mas o saldo ainda se mostra positivo e foi turbinado pela decisão do STF que o inocentou dos crimes que pesavam sobre ele na Lava-jato. A operação que conduziu Sérgio Moro, até então um modesto Juiz Federal do Paraná, à condição de figura pública nacional e internacional.   

Bolsonaro 

Jair Bolsonaro é um acidente de percurso. A mídia e o Congresso demonizaram tanto o PT, que o país se viu dividido entre os que eram contra ou a favor, especialmente depois do impeachment de Dilma e dos crimes atribuídos ao presidente Lula. Resultado: deste embate emergiu um Brasil dividido entre quem é pró e quem contra, não importa o quê nem quem.

Muitos eleitores se sentiram órfãos de liderança política e, somados a eles, se juntaram os decepcionados com o PT. Neste cenário de incertezas, entra em cena o deputado Jair Bolsonaro, um político de posições radicais e polêmicas, hábil nas redes sociais, que se torna o catalisador dessa vontade de expurgar o PT da cena política brasileira.

Para quem acompanhou a trajetória política de Bolsonaro, seu discurso não foi nenhuma surpresa, mas para quem não o conhecia, chamava a atenção a postura arrogante. Guardadas as devidas proporções, algo parecido com o comportamento de Fernando Collor, que se viabilizou com um discurso agressivo anti-Lula e frases de efeito que citavam pérolas como “culhão roxo” e o “combate aos marajás”. Perdeu a batalha e o cargo.

O Brasil dividido elegeu Bolsonaro, mas sua gestão desastrosa está demonstrando que é possível enganar muita gente por muito tempo, mas não todos por todo tempo. As intenções de voto do presidente estacionaram no patamar dos 23%, o que representa uma ameaça para sua reeleição. 

É um indicador evidente de que os eleitores querem mudanças, mas Bolsonaro é resiliente, um adversário que não deve ser subestimado. Ele continua esbravejando contra inimigos políticos – visíveis e invisíveis – e nem deu bola para os mais 140 pedidos de impeachament que pesam contra ele.   

Moro 

O juiz Sérgio Fernando Moro é um personagem da história recente do Brasil. Moro começou a ganhar projeção entre 2003 e 2007, na Vara Federal Criminal de Curitiba, que centralizava processos de repercussão nacional, como o do Banestado, que envolvia personagens como o traficante Fernandinho ‘Beira-Mar’ e o doleiro Alberto Youssef. Este último também envolvido na operação Lava-jato.

Críticos afirmam que Moro usou todos os artifícios legais possíveis para manter o processo em Curitiba e conseguiu. O desfecho o credenciou a receber um convite para o Ministério da Justiça do presidente recém-eleito. Cargo que ocupou por 16 meses sob intensa polêmica.

Na saída, o discurso se inverteu: de aliado passou a crítico feroz do presidente e agora, como revanche ou vingança, ele anunciou sua candidatura à presidência, na esteira da fama recém conquistada. À luz do comportamento do juiz Sérgio Moro e, somado ao fato do presidente Lula ter sido inocentado pelo STF, sua candidatura não decolou na velocidade esperada.

Ele mesmo afirmou que se não chegar a 15% nas pesquisas até final de fevereiro, desiste de concorrer. Promessa de político ninguém leva a sério, mas vamos ver se ele cumpre. Por enquanto, sua intenção de voto está na casa dos 9%. Aqui entre nós, é melhor Moro pensar bem, pois tem uma eleição garantida para o senado, enquanto a presidência é um sonho distante e pretencioso. 

Ciro 

Ciro Gomes, pode se dizer, é um político profissional. Advogado, nascido em 1957, começou a carreira política em 1983, quando se elegeu Deputado Estadual. Depois foi Prefeito de Fortaleza, Governador do Ceará, Ministro da Fazenda, Ministro da Integração Nacional e candidato à Presidência do Brasil em 2018, cargo que pleiteia também em 2022.

Ciro foi o primeiro pré-candidato a assumir oficialmente a campanha, com direito a marqueteiro estrelado (João Santana) e tudo mais. O que complica a percepção de sua competência para o cargo é o discurso, ora coerente, ora raivoso, contra seus oponentes, o que dificulta para o eleitor visualizar quem ele é de fato e qual é seu projeto para o Brasil.

João Santana está polindo algumas arestas, mas por enquanto a estratégia tem se mostrado ineficiente, tanto que as pesquisas mais recentes colocam Ciro na 4a posição com 5%, atrás de Sérgio Moro e à frente de João Dória. Resta saber se o candidato tem alguma carta na manga, capaz de turbinar seu nome e superar a inércia que tem marcado sua candidatura até aqui.  

Dória 

O governador de São Paulo, João Dória, nunca escondeu de ninguém seu desejo de ser Presidente da República. Tanto que, sem pestanejar, deixou a prefeitura de São Paulo para Bruno Covas, pois seu objetivo era o Governo do Estado e, no horizonte, a presidência. 

A par de seu perfil cosmopolita, Doria tem pela frente o desafio de ser conhecido fora das fronteiras do estado de São Paulo. Ele venceu raspando as prévias do PSDB. A pandemia deu visibilidade ao seu trabalho, por conta do eficiente programa de vacinação no estado, mas não foi suficiente para sensibilizar o eleitor de outros estados, tanto que sua intenção de voto está em 3%.

Dória tem poder, influência, dinheiro e a força do estado de São Paulo para energizar sua campanha, resta saber se esses fatores serão suficientes para melhorar sua performance na disputa, pois entramos na contagem regressiva da eleição. Se demorar demais para decidir sobre suas pretensões políticas, até mesmo a eventual reeleição para o Governo de São Paulo pode ficar comprometida. 

Os outros  

Alguns pré-candidatos desistiram precocemente, como o ex-deputado federal e ex-ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que agora deve disputar um cargo legislativo federal ou em seu estado, Mato Grosso do Sul. Dos demais candidatos conhecidos, dois ainda estão em cena: Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, candidato do PSD e Luiz Felipe D’Ávila do Partido Novo, cientista político, que acaba de publicar uma nova edição de seu livro ”10 mandamentos: do país que somos para o Brasil que queremos”. 

Segundo a pesquisa Quaest, ambos têm 0% de intenção de voto até o momento.  

Em um país onde cargo político sempre rende bons dividendos, certamente outros candidatos podem entrar em cena, pois o bolo de R$ 4,9 bilhões do fundo eleitoral aprovado pelo Congresso é apetitoso demais, mesmo para aqueles candidatos que acima do peso. 

Simone Tebet 

No meio de tanto marmanjo, surge uma mulher disposta a marcar presença nestas eleições: Simone Tebet. Advogada, filha do ex-ministro e ex-presidente do Senado Ramez Tebet, ela estreou na política como prefeita de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.

Senadora em primeiro mandato, provou que é protagonista e não coadjuvante. Começou a ganhar visibilidade nacional ao participar do programa Roda Viva, da TV Cultura, em março de 2020. A partir daí, o público passou a prestar mais atenção nas ideias e na postura da senadora, que fazia sua estreia no Senado Federal.

Líder da bancada feminina no Congresso, tem posições políticas claras e coerentes, que fortaleceram sua imagem durante a CPI da Covid.  

O Brasil pós pandemia deixa uma herança complexa para os futuros governantes. O crescimento dos indicadores de fome, desemprego, empobrecimento estrutural, descrença no governo e nos políticos, e crise econômica estão entre eles. Herança que fragilizou milhões de brasileiros.

Portanto, resumiria em três palavras os desafios que o futuro presidente tem pela frente: Cuidar, Incluir e Progredir. 

  1. Cuidar: a pandemia provocou – e ainda provoca – impactos significativos na vida dos brasileiros. Muitos perderam empregos, familiares, renda, autoestima, entre outras perdas. Os pobres ficaram mais pobres e os ricos mais ricos. 
  2. Incluir: a inclusão é a segunda ação importante. Além da população carente é preciso promover a inclusão socioeconômica da mulher, dos idosos, dos negros, dos povos indígenas, dos portadores de deficiência, dos LGBTQIA+ e de outros segmentos no processo produtivo. 
  3. Progredir: o progresso tem que ser distribuído, beneficiando todos os segmentos da sociedade. Geração de emprego renda e fomento ao empreendedorismo integram este cenário. Uma ação coletiva, liderada pelo governo com a participação da sociedade civil e da iniciativa privada. 

De todos os candidatos conhecidos, o único que dedicou atenção às camadas mais pobres da população brasileira foi o ex-presidente Lula, fator decisivo na sua popularidade. Em outro extremo, temos a figura da mulher, da mãe, da política de posições firmes, que reivindica a oportunidade de entrar em cena, num momento em que o protagonismo feminino está pulsante.

As mulheres são a maioria da nossa população e o voto de gênero seria uma novidade. Portanto, deixo no ar uma provocação:  

Será que não é hora do voto feminino mostrar sua força?  

É dentro deste cenário que chamo a atenção dos leitores para o nome de Simone Tebet – que tem apenas 1% das intenções de voto – mas é o fato verdadeiramente novo desta eleição e pode surpreender as previsões mais pessimistas.  

Como profissional de comunicação, liderei mais de 20 campanhas eleitorais em São Paulo e Santa Catarina nos últimos 35 anos. Muitas delas eram dadas como perdidas na largada, mas o tempo e a estratégia demonstraram o oposto. É fato que a legislação eleitoral encolheu as campanhas no rádio e na TV, porém outros recursos de comunicação entraram em cena, entre eles as redes sociais, que exigem novas competências dos marqueteiros.

Cada plataforma tem uma personalidade própria, que molda o perfil da audiência e torna cada vez mais complexo o desafio de convencer e converter intenção em voto. A eleição de 2022 ocorre neste contexto e, o candidato que souber transitar no mundo digital leva grande vantagem. A rede já provou que pode eleger um candidato inesperado ou canibalizar um político bem intencionado.

Fico na torcida para que Simone Tebet saiba navegar nesta onda até o dia 2 de outubro. Segundo turno é outra eleição.

https://prensa.li/jornalistasonline/o-fator-simone-tebet/

Escrito por
Ricardo Mucci