25 de maio de 2022
O diabo no Planalto

O diabo no Planalto

O diabo no Planalto

Há pouco mais de uma década, dediquei-me a uma pesquisa acadêmica na Faculdade Cásper Líbero sobre a figura do demônio na mídia controlada pelas igrejas neopentecostais do Brasil.

Desse trabalho resultaram alguns artigos e uma dissertação de mestrado, intitulada “O Diabo na tela – o discurso escatológico como elemento persuasivo da comunicação na contemporaneidade” (aqui, grátis). 

Após a eleição de Jair Bolsonaro, esse trabalho evoluiu para a forma de um ensaio, agora intitulado “O Diabo no poder”, concluído em dezembro de 2018 e atualizado um ano depois, com uma análise das manifestações de desvario do presidente.

O ponto de partida do estudo foi uma mudança radical nos modos e discursos das principais organizações religiosas do ramo, que na primeira década do século acrescentaram à “teologia da prosperidade” a prática de exorcismos, colocando no centro de suas práticas um suposto combate ao demônio.

Na Igreja Universal do Reino de Deus, controlado pelo bispo Edir Macedo, na Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdemiro Santiago, e na Assembleia de Deus, ministério dirigido por Silas Malafaia, os cultos passaram a ser preenchidos cada vez mais por “sessões de descarrego”, “curas” de homossexualismo e demonização das religiões de origem africana.

As prédicas passaram a enfatizar o propósito de desautorizar as ciências, consolidando-se os templos como espaços de negacionismo.

O ponto de partida para a observação dessa mudança de curso, que leva a uma “teologia do apocalipse pessoal”, foi um vídeo postado por uma fiel da igreja de Santiago, no qual ela afirma que foi curada de uma obstrução intestinal ao amarrar na cintura o “travesseirinho santo”, uma pequena almofada azul vendida nos templos.

Depois de quinze dias sem defecar, ela diz, podia finalmente se alegrar por ter dado “uma bela duma cagada”.

Alguma relação com a obsessão escatológica do presidente do Brasil?

O capeta na política

Nesse ambiente foi fertilizada a candidatura de Bolsonaro, conforme se pode constatar na análise das pesquisas de intenção de voto da época. Não foi um acaso o fato de Edir Macedo e Vladimir Santiago haverem esquecido a encarniçada disputa a que se dedicavam desde que Santiago deixou a IURD, levando dezenas de pastores para formar sua própria igreja.

No segundo semestre de 2018, eles tinham abandonado a rixa e se aliado no apoio a atual presidente: em setembro de 2018, Bolsonaro, impulsionado por declarações dos líderes neopentecostais e por um tsunami de fake news, descolou-se rapidamente dos demais concorrentes, alcançando 24% das intenções de voto, com a adesão crescente de outras forças conservadoras.

O demônio nos altares

O que se pretende destacar aqui é a evidente relação entre o discurso e a prática negacionistas que ainda caracterizam o atual governo e a centralidade da presença do demônio nos cultos neopentecostais.

Aquilo que hoje parece a muitos observadores como expressão de insanidade é na verdade o núcleo de uma “teologia” invertida: ao apresentar o demônio como um ser extremamente poderoso, capaz de transmudar a natureza sexual dos humanos, de destruir suas famílias, seus negócios e seus empregos, convence-se o eleitor de que ninguém pode resistir ao diabo sem a ajuda da igreja.

Na prática, ao dar essa centralidade ao capeta, os cultos o colocam no altar. Ao analisar as narrativas de pastores, bispos e apóstolos, sob a ótica das teorias da comunicação, conclui-se que passam a ser cultos satânicos.

Mesmo que o diabo seja “derrotado” em cada sessão de exorcismo, ele reaparece na sessão seguinte, para ser novamente derrotado. O que se ensina é que o mal nunca pode ser vencido, é imortal e persistente em sua saga.

O triunfo do mal

O discurso de Jair Bolsonaro, que ainda cause estranheza pelos elementos de insanidade em que aparentemente vem embalado, não se diferencia das prédicas das organizações neopentecostais que instalaram o demônio em seus altares. Contém os mesmos elementos de dissimulação, mentira e falsos argumentos que, na tradição religiosa ocidental, caracterizam a falácia do diabo.

Transplantado para a campanha do candidato e mantido pelo presidente eleito, esse discurso acaba sendo assimilado no ambiente público, cimentado à realidade percebida por laços de ficção transformados em uma “nova verdade”.

Assim, o que era antes conteúdo de diálogo e confronto entre o demônio e os oficiantes de cultos nas igrejas se transfere e se instala como parte da argumentação política, cultural, social e econômica. No apego ao poder político (e econômico), os líderes neopentecostais também se tornam agentes do demônio.

Não deve ser causa de estranheza essa conjunção de leituras contraditórias da realidade – uma vinculada ao campo político e outra de cunho religioso. Jair Bolsonaro, inegavelmente um prócer do fascismo, não tem outro recurso para dar a seu governo um verniz de legitimidade que não seja a narrativa ficcional das igrejas, fundamentada em votos de santidade.

Difícil seria entender como a prédica religiosa se coaduna com a práxis maléfica do governo, que resulta em muita dor, muitas perdas, fome e miséria.

Talvez uma explicação tenha sido dada por Vilém Flusser, filósofo checo-brasileiro nascido em Praga, autor, entre outras obras de “A História do diabo”. 

Não são poucos os analistas e comentadores da imprensa e das mídias sociais que enxergam nas políticas do governo uma mistura de maldade com estupidez. Segundo Flusser, o propósito do demônio é “criar o espírito humano perfeitamente diabólico.

Alguma dúvida sobre seu triunfo?

Referência: 
FLUSSER, Vilém. A história do diabo. Anablume, São Paulo, 2005.

https://prensa.li/jornalistasonline/o-diabo-no-planalto/

https://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2014/02/LUCIANO-MARTINS-COSTA.pdf

Escrito por
Luciano Martins Costa