19 de maio de 2022
O bizarro mundo dos midiotas

O bizarro mundo dos midiotas

Crédito: Divulgação

Recentemente, publicamos aqui um texto questionando se o Brasil tem massa crítica para superar a atual crise (política, econômica, institucional e social – uma tempestade perfeita) e implementar um projeto de desenvolvimento sustentável capaz de sobreviver às crises cíclicas do mundo globalizado.

Replicado em redes sociais, o artigo gerou reações variadas, mas claramente concentradas em posições extremamente antagônicas, otimistas ou pessimistas, com poucas manifestações buscando uma ponderação relativa às muitas facetas da questão. Embora em postagem pública, observe-se que a maioria dos comentaristas apresentava alto nível de escolaridade.

Voltamos ao tema para examinar uma das causas da dificuldade que temos, como país, de atacar com eficiência nossos problemas. A proposta é analisar a deficiência da educação do cidadão médio, especificamente na capacidade de interpretar o conteúdo da comunicação social.

O diagnóstico: falta ao brasileiro médio, alfabetizado e mesmo a muitos bem educados, capacidade crítica para entender e contextualizar os textos da mídia corporativa e de artigos ou mensagens curtas publicados nas redes sociais.

Essa deficiência é denominada, nos países de língua inglesa, media illiteracy. No Brasil, o campo de estudo de Comunicação que procura entender a capacidade de reconhecer a realidade no conteúdo jornalístico e de comunicação social em geral, chama-se Educomunicação.

Bastaria a qualquer observador coletar o que se diz nos embates de opiniões ou verificar a aceitação passiva das chamadas fake news para constatar que a sociedade brasileira está contaminada pela massa acrítica da media illiteracy.

Crenças absurdas

O fenômeno não é de hoje: há seis anos, no dia 12 de abril de 2015, dezenas de pesquisadores orientados pela socióloga Esther Solano, da Unifesp, e o filósofo Pablo Ortellado, da USP, foram à Avenida Paulista entrevistar manifestantes que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

O resultado das 571 entrevistas dá uma ideia da mente bizarra dos presentes: entre outras questões propostas, 71,30% disseram acreditar que um dos filhos do ex-presidente Lula da silva, Fábio Luís, era sócio da multinacional de alimentos Friboi; 64,10% afirmavam que o Partido dos Trabalhadores tinha planos de implantar uma ditadura comunista no Brasil; 70,90% diziam que a política de cotas nas universidades gerava racismo. 

Outras respostas revelavam uma crença generalizada de que o programa Bolsa-família “só financiava preguiçosos”, que o PT tinha trazido milhares de haitianos para votar em Dilma Rousseff e que a organização criminosa PCC era um braço armado desse partido.

Curiosamente, apesar de 57,80% dizerem que tinham pouca ou nenhuma confiança na imprensa, 85,30% reverberavam o noticiário onipresente na mídia e consideravam que o escândalo da Petrobrás era o maior caso de corrupção de todos os tempos.

Os midiotas

Contradições desse tipo não constrangem quem as pronuncia. Pelo contrário, declarações contraditórias como as que se pode coletar em manifestações contrárias à vacinação anti-Covid ou condenando as restrições de aglomerações durante a pandemia são ofertadas com ostentação, como manifestações de orgulho da própria estupidez.

A pesquisa conduzida por Ortellado e Solano revela o baixo nível de cultura política e grande propensão desse público a acreditar em mitos urbanos. Embora tenha enquadrado especificamente a matriz dos protestos que levaram ao impeachment em 31 de agosto de 2016, pode-se afirmar que esse é um perfil claro de grande proporção de brasileiros, de corte fortemente conservador.

Voltando ao tema da massa crítica, pode-se afirmar que a indigência da sociedade brasileira quanto à capacidade de apreender a realidade a partir do sistema corporativo ou alternativo de comunicação está na origem dos abalos frequentes que sofre nossa jovem democracia.À falta dessa educação especial, que lhe permita formular opiniões apropriadas para questões de seu interesse, o indivíduo iliterato se torna presa fácil das mais absurdas afirmações que vê, lê ou ouve. Como no “vidiota” do romance de Jerzy Kosinski, que inspirou o filme intitulado “Muito além do jardim”, a intensa exposição às “fake news”, sem o contraponto do senso crítico, cria e alimenta o bizarro universo dos midiotas.

https://prensa.li/@luciano.martins/o-bizarro-mundo-dos-midiotas/

Escrito por
Luciano Martins Costa