25 de maio de 2022
O apagão científico

O apagão científico

Crédito: Wallpaper

Descaso com a ciência, cortes nas verbas de pesquisa e a ciência segue no caminho do atraso.

A democracia brasileira está em frangalhos. Há um evidente descaso do governo pela ciência brasileira, pelo conhecimento e pelo papel das universidades. Em nenhum lugar do mundo, nenhum, o descaso pelo conhecimento, pela educação e cultura, pelo meio ambiente e tecnologia, terminou bem. Ao contrário.

Países que investiram décadas nesses setores estratégicos, são os mais desenvolvidos e com maiores índices de bem-estar social nos dias de hoje.

Aqui, remamos para o penhasco.

Há uma série de avanços civilizatórios que são conquistas do povo brasileiro em risco. Colapso de gestão e falta de compromisso com o amanhã das novas gerações. Estamos queimando nosso futuro.

Corte criminoso

O Ministério da Economia decidiu fazer um corte de 92% nas verbas destinadas ao ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O corte é de R$ 600 milhões!

https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/10/15/bolsonaro-sanciona-corte-de-r-600-milhoes-no-ministerio-da-ciencia.ghtml

https://super.abril.com.br/sociedade/entenda-o-corte-de-r-600-milhoes-no-orcamento-da-ciencia-brasileira/

Acontece que esse dinheiro é carimbado.

É um fundo setorial – Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico – que visa trazer benefícios para as empresas que arrecadam impostos com esse objetivo. 

Por exemplo: no agronegócio, as empresas do setor, pagam e financiam pesquisas para melhorar a rede de plantio, aperfeiçoar as técnicas de criação, etc. Em qualquer país sério, esses recursos não são considerados gastos, mas investimento.

Ou seja, as empresas pagam para melhorar a pesquisa em todas as suas áreas de interesse, justamente para melhorar a produtividade e a competitividade. Assim caminha o aperfeiçoamento das redes produtivas, ancoradas pela pesquisa tecnológica.

Não é o caminho do Brasil de Bolsonaro.

Descaminho e rombo

Esses recursos serão desviados para tapar o rombo, o déficit público acumulado pelo gerenciamento desastroso da economia e para a farra do orçamento secreto. O Centrão agradece comovido.

Isto sem falar de recursos retidos no fundo específico de telecomunicações, para fornecer tablets, smartphones, banda larga para os alunos de escolas públicas que, na pandemia, não puderam acompanhar o ensino a distância. Esqueçam.

A ciência foi apunhalada pelas costas. Foi um golpe contra o desenvolvimento do país, inviabiliza as iniciativas de pesquisas, desmonta o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Para Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, o corte de R$ 600 milhões é uma escolha política com consequências devastadoras. “Sem ciência, o Brasil está fadado ao atraso”.

http://portal.sbpcnet.org.br/

https://guiadoestudante.abril.com.br/noticia/quem-e-renato-janine-ribeiro-novo-presidente-da-sbpc/

Agindo contra a lei

A equipe econômica agiu contra a lei, manobrando deliberadamente para prejudicar o desenvolvimento científico e o conhecimento no Brasil. Na prática é o CNPq condenado à inação. 

Apoiada por sua base de apoio, a medida é iniciativa exclusiva do Presidente da República. O ministro astronauta, da Ciência, Tecnologia e Inovações, nem foi consultado, ficou no espaço. Disse que “foi pego de surpresa.”  

O governo não conhece ou prefere ignorar a excelência que se produz dentro do ambiente acadêmico e de pesquisas.  E não sabe o que significa esse corte.

Impacto em rede

É o chamado impacto em rede. Ele acerta as universidades, os professores, os cursos, as plataformas de pesquisa e alcança os alunos que ficam na fila do nada.

Não é assim nos países desenvolvidos, certo que não. A Ciência aplicada à vida cotidiana e à economia, centros de inovação científica trazem benefícios concretos para qualquer setor produtivo e de serviços. Por essa razão, que fundos específicos financiavam ensino e pesquisa, em todo o mundo.  

Tudo isso indica um caminho já conhecido desde 2018.

Estamos em colapso sanitário, ético, do saber, da cultura e do meio ambiente.

Democracia derretendo é desastre que pega todo mundo.

Razões para otimismo?

Sim. Há razão para otimismo. No longo prazo, temos o futuro em aberto. E não existirá um futuro planetário digno sem ciência, sem conhecimento. Não há necessidade de escolher entre a economia e a vida. É uma falsa escolha. A economia sustentável só pode prosperar em respeito ao meio ambiente. Esse conceito está se enraizando cada vez mais, onde lideranças de várias partes do planeta defendem um sistema mais ético.

Um ex-ministro do Meio Ambiente posando na frente de toras retiradas da Amazônia, de árvores centenárias, e atual ministro mentindo e omitindo para o mundo todo, na COP26, sobre os números recordes de desmatamento, são imagens que vão para o lixo da história.

Comportamentos que não cabem mais em nenhum lugar minimamente civilizado.

Reconstruindo o país

Este pesadelo vai passar e chegará a hora de reconstruir o Brasil. Recolocar a inteligência na produção agrária, pecuária, industrial, tecnológica, de serviços. Investir recursos necessários.

A ciência será peça chave e fundamental para a retomada do nosso desenvolvimento. Hoje, ela está sob ataque, cercada, num apagão de mediocridade e descaso.

Escrito por
Carlos Muanis