20 de maio de 2022
Mãos à obra, meu filho

Mãos à obra, meu filho

Crédito: jornalggn.com.br. Foto: Tiago Queiroz

A jornalista mineira Márcia Lage escreveu um belo, verdadeiro e desesperançado texto sobre o Brasil atual. Síntese: elegemos o carcereiro. O riso sumiu até de rostos solares. Caetano Veloso gravou um vídeo com a música que diz “não vou deixar você esculhambar com a nossa vida”.  Perdemos a grife que nos distinguia no mundo: leveza e alegria coletivas, lamenta Lage.  

Vivi a catarse do processo de democratização do país, que desembocou na Constituinte de 88. Fim dos anos de chumbo. Jovem repórter de Veja, Globo, Estadão e Folha frequentei o Palácio do Planalto dos militares. Censura explícita. Jornalistas considerados subversivos não obtinham credencial para cobrir a Presidência da República. Hoje, os credenciados são achincalhados pelo presidente de plantão, desrespeitoso e agressivo. De 1985 até 2018 exercitamos a democracia que nos competia, aos trancos e barrancos, como só ia acontecer num regime que se reinventava.  Sobressaltados por perceber que o saque aos cofres públicos continuava. Os civis também desviam. Sem as amarras à imprensa, típicas de governos de exceção, noticiamos e assistimos a compra de votos para a reeleição, mensalão, petrolão e agora o combo milícia, rachadinha, apologia às armas e desrespeito aos direitos sociais e ao meio ambiente. Retrocesso, verdadeiro atraso civilizatório.

Mundo em convulsão.

Sou privilegiado. Como príncipe consorte, acompanho minha Marcia, nos Estados Unidos, em um doutorado. Lavo, limpo e cozinho, no clássico American way of life.`Peguei metade do desastroso governo Trump (matriz do bolsonarismo). Vi de perto a invasão do Capitólio, incentivada pelo ocupante da Casa Branca. 

Assim como tive esperanças em 1985 com a queda dos militares, me animei com a chegada de Biden-Kamala ao poder. Mas o trem tá feio, como dizem os goianos. Dissensão no Partido Democrata impede a aprovação, pelo Congresso, do pacote social e desenvolvimentista, lançado para aliviar impactos da pandemia. 

Na Europa, o avanço do vírus, por negacionismo à vacina, indica que medidas restritivas terão que ser retomadas. Angela Merkel sai de cena na Alemanha. A China ruge, transborda, reelege seu mandarim, Xi Jinping, até a eternidade. Copia a Rússia, que tem o czar Putin. Apesar de meneios graciosos, EUA e China continuam se estranhando e esse estranhamento afeta o mundo.     

Olhar para o futuro.

E agora, José? Pouso os olhos no meu garoto de 17 anos e isso renova minhas esperanças. Não podemos entregar os pontos, a luta é permanente. Mas, essa geração recebe uma sociedade ainda mais injusta. Os desafios são imensos. Vão desde mudanças climáticas, migração massiva de estropiados, que arriscam sua integridade por um lugar ao sol, até a fome na Terra. Inconcebível em tempos modernos. 

Quero crer que meu menino e seus pares vão dispor de ferramentas suficientes para recolocar o mundo nos trilhos. O recado é claro, cristalino: a lógica, perversa, que regeu a vida até agora tem que mudar. 

A história da humanidade é feita de ciclos. 

Outros valores, outros enfoques se impõem. 

Mãos à obra meu filho.    

Escrito por
Laerte Rimoli