22 de maio de 2022
Madrid com D

Madrid com D

O romance de estreia do jornalista Simon Widman, é uma grata surpresa. Bem estruturado, tem personagens tão vivos que fazem o leitor exigir que existam de verdade. Principalmente o protagonista central, Sebastián Milies, um escritor uruguaio idoso, desconhecido do público brasileiro, que construiu, paralelamente à carreira literária, uma vasta fama de sedutor.

Não vai exagerar quem enxergar em Milies o também uruguaio Mario Levrero, autor do instigante “Romance Luminoso”, que somente alcançou o reconhecimento de um grande número de leitores no Brasil depois de morto. A história gira em torno da relação entre o escritor, octogenário, com a jovem Elvira, jornalista brasileira encarregada por uma revista literária de entrevistá-lo. Faria e Silva Editora fez um trabalho respeitoso e discreto, sem aquelas capas berrantes que brigam na estantes das livrarias.Há outros personagens cativantes em cena, mas é no jogo sutil entre a jornalista e o escritor que se revela a qualidade da narrativa.

Simon Widman e eu somos amigos há muitos anos. Simon é alguém vocacionado para ser o melhor amigo de seus amigos, que são muitos. Por isso, tive que exercer na leitura um senso crítico exigente, do tipo que faz o leitor ficar com raiva quando encontra, por exemplo, um erro de digitação, ou uma frase que poderia ser formulada de outra maneira. Mas não dá para fugir às evidências da qualidade do seu primeiro trabalho literário, e é preciso dizer que “Madrid com D” se diferencia, com superioridade, da maioria dos romances brasileiros premiados nos últimos anos. Li todos eles.

Há no texto de Simon Widman uma naturalidade, um jogo envolvente difícil de achar na literatura selecionada pelos gerentes de marketing das principais editoras brasileiras. A razão disso, posso afirmar, é clara: Simon não passou por uma dessas oficinas que tudo pasteurizam, que trazem todas as histórias para o quadrado de uma contemporaneidade individualista, tribalista, mesquinha e principalmente sem compromisso com o entorno social.

Simon Widman nasceu no Uruguai e se mudou com sua família para São Paulo na década de 1960, aos 11 anos. Fez carreira como jornalista e, com certeza, inaugura com esse romance uma nova e promissora carreira.Ele garante que Sebastián Milies é uma invenção.

Pena. O velho sedutor merecia um lugar neste mundo.

Escrito por
Luciano Martins Costa