20 de maio de 2022
Jair Bolsonaro, vem aí o espírito natalino, às avessas

Jair Bolsonaro, vem aí o espírito natalino, às avessas

Jair Bolsonaro, vem aí o espírito natalino, às avessas.

A chamada seara do poder foi bem ampla na semana passada. A começar por uma agenda cheia de Jair Bolsonaro. O senhor que preside o país fez de tudo.

Viajou para ver de perto cerimônias de formatura de militares; participou de solenidades no Palácio Planalto. Discursou, fez orações, ouviu música. E ainda não deixou de estar presente na posse do seu escolhido para o Supremo, o agora ministro André Mendonça, que foi ministro da Justiça de seu governo.

No Congresso, a agenda dos parlamentares também não foi amena. Câmara e Senado apressaram-se para aprovar matérias que dormitavam na fila de votações.  

O ponto alto, digamos, foi a eleição do senador mineiro Antonio Anastasia para o Tribunal de Contas, na vaga deixada pelo ministro Raimundo Carreiro indicado por Bolsonaro para assumir a embaixada do Brasil em Portugal.

Essa semana não será tranquila. Para entrar em recesso o Congresso tem que aprovar a LDO, o Orçamento da União para o ano que vem. Prepare-se para uma sequência de discussões porque os parlamentares vão defender, cada um, a aprovação de envio de recursos para suas regiões. No Planalto, vamos ouvir nas celebrações que faltam para fechar o ano, discursos de ataque. 

Dia de pesquisa, 55% péssimo ou ruim 

A agenda de Jair Bolsonaro não previa nenhum evento no segundo andar do Palácio Planalto. Mas, na terça-feira, 14 de dezembro acabou recebendo um grupo de agentes e vigilantes da Polícia Rodoviária Federal.

À tarde, o IPEC divulgou pesquisa feita com a avaliação de seu governo, faltando menos de um ano para a eleição presidencial: 

Ótimo e bom: 19% 

Regular: 25% 

Péssimo e ruim: 55% 

Não sei se ele, antes de comparecer à cerimônia, soube dos números da pesquisa. Será? 

Dia do forró, mas a sanfona desafinou 

A data, 13 de dezembro era para lembrar os 109 anos de nascimento do cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, natural de Pernambuco e falecido em 1989. Mas a festa foi para homenagear Jair Bolsonaro. 

Liderados pelo sorridente ministro do Turismo, Gilson Machado Filho, conterrâneo do famoso artista, músicos de vários estados estavam no segundo andar do Planalto para o evento intitulado “Matrizes do Forró”.

Dessa vez o presidente não discursou. Só ouviu. Ao lado da primeira-dama Michelle, escutou o secretário nacional de cultura, Mário Frias, dizer emocionado que é intensamente admirador de Bolsonaro. 

O risonho titular da pasta do turismo também não perdeu a chance de tecer meigas palavras para Bolsonaro. Depois de discursar, foi a vez de demonstrar suas habilidades como tocador de zabumba e sanfona.

Acompanhado por outros músicos, entoou vários sucessos de Luiz Gonzaga. E do repertório também fez parte um refrão especialmente composto para a ocasião, cantado e repetido enquanto o senhor ministro abria o fole de seu acordeón: 

— “Oh, Bolsonaro, você é mil. É o maior presidente do Brasil!” 

 Dia de lembranças sombrias, 53 anos AI-5 

A noite de sexta-feira 13 de dezembro de 1968 é inesquecível. O marechal Costa e Silva, então presidente da República, promulgava o AI-5. Talvez o decreto que mais feriu a democracia brasileira.

O Ato Institucional Número Cinco, que fechou o Congresso Nacional, cassou o mandato de parlamentares, permitiu a tortura, suspendeu o habeas-corpus, estabeleceu a censura à imprensa, ao teatro e ao cinema. E também restringiu várias liberdades, por exemplo, a reunião de pessoas fossem quaisquer os motivos. 

A justificativa do segundo presidente do regime militar para tão nefando decreto era garantir à Revolução de 1964 “encontrar os meios indispensáveis para a obra de reconstrução econômica, financeira e moral do país”. 

Com a Câmara dos Deputados e o Senado Federal postos em recesso, Costa e Silva passou a governar com Decretos-Lei. 

Eu era um jovem fotógrafo e cobria para o jornal O Globo os assuntos da política. Senti que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso.

Atravessei o Eixo Monumental, a avenida que separa o Palácio da Câmara e Senado. No Planalto não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do ato presidencial. 

Eu estava certo. Numa salinha do térreo abarrotada de senhores atônitos, consegui ainda fotografar alguns deputados ao pé do radinho de pilhas ouvindo a leitura da intervenção na Constituição lida em cadeia nacional pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva.

Entre eles, estavam os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e funcionários. 

Logo em seguida, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso. Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazu Médici, no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral que lhe tirou do poder e da vida.

O nefasto AI-5 só foi revogado dez anos depois, em 1978, pelo general Ernesto Geisel, com o processo de redemocratização do Brasil. 

Passadas cinco décadas, hora e outra ouvimos personagens do atual governo ameaçarem a democracia com edição de ato idêntico àquele que mudou a vida do Brasil. E o pior, um deles é o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do capitão que agora preside a República.

Imagens – Orlando Brito

https://prensa.li/@orlando.brito/jair-bolsonaro-vem-ai-o-espirito-natalino-as-avessas/

Escrito por
Orlando Brito