20 de maio de 2022
Faustão na Band

Faustão na Band

Faustão na Band

Corre um frio na espinha quando se está dentro da nave da própria história, vivendo, de camarote, tudo aquilo que ficará para sempre no VT da memória de um Brasil de audiência.

A gente sabe  que está lá, testemunha ocular de tudo, quase virando lenda, mas não cai a ficha.

E não foi diferente naquele 26 de março de 1989. Era um domingo da Páscoa que prometia ser bem chatinho: as redes sociais nem formavam rede alguma, a selfie nem tinha nascido, o celular era um tijolo, a TV de nosso entretenimento (muitas ainda em p&b) era a rainha do lar e o domingo de Deus era o dia mais chato da semana.

Só de ouvir a trilha do Fantástico com seu “TCHUM TCHÁ ,TCHUM TCHUM TCHUMTCHÁ“ o cidadão brasileiro entrava copo adentro, tentando afogar a perspectiva de uma semana de trabalho que se iniciaria daqui algumas horas.

Chacrinha tinha ido  pro andar de cima, balançando a pança e Silvio Santos enlouquecia o público com seus aviõezinhos de dim dim.

Este gaúcho que voz escreve era diretor de programas na longínqua RBS TV, tradicional afiliada da Globo e quase caiu do cavalo quando viu chegar pelo correio, lá no morro de Santa Tereza, em Porto Alegre, um Kit convite-oficial impresso, convidando para a estreia do Domingão do Faustão no Rio de Janeiro. Era o programa zero uno! Ao vivaço, com pompa e circunstância.

Como nada é de graça neste mundo, descobriu-se mais tarde que o plano da Rede Globo, conhecida nas internas como Vênus platinada, por conta da cor de suas viaturas de reportagem, era produzir não só quadros especiais locais, nas praças, como programas inteiros, de tempos em tempos. E os diretores artísticos eram fundamentais para isso acontecer.

O convite dava direito a  fazer um estágio acelerado na fonte dos iluminados criadores de programas nacionais e incorporar o be-a-ba daquele produto, tão diferente de tudo que a Globo tinha feito até então.

Assinado o alvará de soltura pelos chefes, parti ao RJ em expedição avançada, exército de um homem só. Missão: invadir o teatro Phoenix, naquele dia histórico para conferir de perto a novidade.

Repare  bem no relógio do tempo, no calendário de quase 40 anos atrás! (passa um filme).

Imagine como se sentia aquele xucro diretor de 20 e poucos anos vendo brotar diante de seus olhos, em ordem descronológica, protagonistas lendários como My Boy (o sonoplasta das estrelas e da Discoteca do Chacrinha), Russo (o operador de microfone mais performer do Brasil), Renato Laranjeiras (dublê de câmera e bigodon, o leão marinho do plimplim). Além de diretores de TV feras como o saudoso Elmar Sérgio e Vicente Burguer. Produtores descolados, Xuxa Meneghell, no auge de sua deslumbrante loirice, Lulu Santos, uma banda ao vivo com maestro Caçulinha! Uma Platéia vibrante de quase 400 pessoas, figuração, elenco estelar, tudo isso pilotado pelo glorioso Augusto César Vanucci.

Em segundos vi subir na minha frente, em carne e osso, todos os letterings lacradores da minha vida de telespectador até então. Gente que eu conhecia de nome e de fama.

Com o coração aos pinotes fui introduzido ao camarim no que seria a primeira famosa reunião de briefing e de alinhamento da vida do Domingão.

Lá dentro, esparramado numa poltrona, Fausto Silva, que ainda não era Faustão, ouvia atentamente o Vanucci e retrucava sem parar, metralhando ideias, inventando moda, escrevendo suas rosquinhas ininteligíveis em sua ficha de produção.

Uma folha de ofício dobrada pela metade e repleta de anotações de rodapé. E pedia sugestões pra todos nós, até pra mim, o intruso, e ia anotando tudo.

Close. As rubricas de apresentador eram legítimos hieróglifos, e ele se embananava na hora de decifrar.  Produtor algum conseguia traduzir.

Lá no palco, uma galera super animada “aquecia” a plateia, numa atividade febril. Na lateral do palco a produção terminava de escrever palavras de ordem em cartolinas imensas. As famosas frases do Faustão!

A todo momento, no estúdio, o público era repaginado: maiores e “mais feios atrás”, e na fila do gargarejo, mais salientes e em destaque, a famosa linha de frente do domingão. Vai fazer xixi? Senta aqui embaixo, tá de boa? Sobre mais um degrau.

Pilotando suas câmeras , completamente à vontade, lá estavam Renato Laranjeiras fantasiado de leão marinho, Gaúcho, Sassá, Philipão, Maguila, Capeta e outros cameramans cascudos de tão experientes. A lentes iam e viam buscando takes diferenciados e inovadores.

Quando o vermelhinho do “ao vivo” acendeu, a TV inteira entrou em catarse.

Luz, ação!

Fausto vinha do camarim como uma locomotiva empurrando tudo. E o roteiro virava água. Ele bagunçava a bagunça, desencontrava as câmeras, saía da luz, desrespeitava as marcas, subvertia a ordem.

Mexia na mesa de áudio, era o terror dos cabomen, ia até a mesa de corte, o suíte do programa ( -“Me dá cabo, me dá cabo”! ) numa alegria infantil de palhaço que esculhamba a própria performance.

 Foi ali que ouvi pela primeira vez o seu mantra:

“- Quem sabe faz ao vivo”, Ô loco!

E descobri, na carne , que para rasgar o roteiro é preciso ter escrito um e muito bom.

Sem um planejamento espartano e suado, sem produção, sem ensaio, ninguém consegue manter a desordem por muito tempo. Mas a proposta era essa mesma.

Regressiva no ar. 3…2….1.  Explode a trilha.

-Ta ta tá tararaaaaaaaaaaah! Maestro Edson Frederico e Caçulinha atacam.

As gatinhas mais charmosas do Brasil pululam freneticamente, coreografando, ao vivo, na academia do Faustão.

Completamente à vontade e dono da situação, ele solta a voz tonitroante e disparava o primeiro “pentelho” e aquele seu vocabulário sui generis, nunca dantes proferido na TV do seu Roberto Marinho.

Reclama do calor, do lanche, da mosca voando no estúdio. O público delira.

Mais de 20 monitores ligados simultaneamente iluminam a suíte e dão conta que não seria nada fácil pilotar aquele “boeing” no ar, 8 horas seguidas, no mais puro latifúndio televisivo dominical.

Fiquei imaginando que tipo de equipe atravessa  a tarde de domingo como uma flecha e perfura a mesmice sem dar branco, puxando a audiência pra cima, acertando no alvo e rebocando o Brasil pelos fundilhos, fazendo todo mundo vibrar. E se divertir de montão.

O elenco era estelar: Xuxa acompanhada das Paquitas, Wando, Elba Ramalho, Lulu Santos, Gaúcho da Fronteira, Grupo Raça, Guilherme Karam, na época bombando em Tv Pirata. No pano de fundo, a galera da academia do Faustão dançando Charme. (estilo musical precursor do funk carioca).

E as horas foram passando divertidamente. E os quadros pré-gravados se alternando com os ao vivo: Mano-a-mano, Controle Remoto, Olimpíadas, Arquivo Confidencial, Sexolândia, Videocassetadas. .. Nem lembro mais quando subiu o roll final.

Lições aprendidas

Voltei para Porto Alegre com um tsunami na cabeça. Podem falar o que quiserem, mas a lição de vida foi uma patada.

Poucos meses depois, já melhor ambientado, me vi pilotando vários quadros, entrando ao vivo da minha praça, como o Caminhão do Faustão, ou mandando talentos para os demais segmentos, fazendo acontecer.

A vida deu um searching maluco de alguns anos e quis o destino que em 2003 quem estivesse sentado na mesa de suíte principal, ouvindo piadas de gaúcho e tentando botar ordem no hospício, fosse eu.  A Academia tinha virado Ballet. O tempo era outro, mas o programa nervoso era o mesmo.

“- Ô Loco Kober, eu já te falei que não era pra trazer parente no programa Olha esta cacetada aí, é teu tio?”

No minuto a minuto do Ibope colocado bem na minha frente, toda vez que ele fazia isso, o ponteiro disparava. Consolidando a maior audiência de domingo.

Inevitavelmente comecei a dar autógrafos no meu condomínio, no posto de gasolina da esquina, na padaria, na faculdade em que dava aula. Audiência consolidada é outro mundo!

– Você é o Carlos Kober do Faustão? Jesusinho que ele te pegou no pulo né? Como foi a reunião da segunda?

E foram muitos anos vivendo perigosamente, descalçando as câmera, trocando  a ordem das matérias, quadros criados, reuniões de briefing, mas também de um profundo reconhecimento profissional no ar.

Com ele sempre foi assim: fazia questão de citar nome e sobrenome de todo profissional verdadeiramente envolvido e que fazia a diferença naquela mega estrutura.

Uma das coisas que mais aprendi por ali, foi manter no coração uma eterna insatisfação. Um  pensar diferente, todo dia. A cada minuto. A gente aprende que a rotina desarma o profissional e que  sempre dá pra fazer o que não foi feito. Superar o limite. Reinventar sempre.

O Domingão foi, durante muito tempo, uma das maiores plataformas de lançamento do País . Tanto no pessoal como no profissional, muita gente é cria deste ambiente mágico. Ali sempre foi e será a melhor escola de “ao vivo” que podemos ter.

“- Quem sabe faz ao vivo, e quando erra conserta ao vivo também!”

Fausto Silva embarca este ano em outra emissora: A Band,  o seu berço original, onde estreou no antigo “Perdidos na Noite”, que o tornou conhecido nacionalmente.

É uma nova janela que se abre, um desafio monstruoso agora diariamente. E envolve uma equipe gigante. A bordo está a irmã Leonor Correa, a esposa Luciana Cardoso, o filho João Guilherme Silva de 17 anos, que vira apresentador, e um grande elenco. Todos crias do próprio programa. Um desafio e tanto!

Como ele mesmo diz: não é só um programa, mas toda uma programação que vem por aí. Mas isso já é uma segunda matéria. Até lá!

Imagens – Divulgação

https://prensa.li/jornalistasonline/faustao-na-band/

Escrito por
Carlos Kober