21 de maio de 2022
Falta massa crítica?

Falta massa crítica?

O Brasil vive uma circunstância trágica: raramente, desde a proclamação da República, houve tão coeso e efetivo protagonismo do mal em suas instituições.

Não se pode negar esse pressuposto. Como diz aquela “composição” do grupo musical Furacão 2000, “tá dominado, tá tudo dominado”.

A permanência do ex-militar Jair Bolsonaro no poder Executivo, mesmo sitiado por acusações que teriam valido a qualquer outro a porta da cadeia, é uma evidência irrefutável de que a República se torna progressivamente disfuncional a cada dia em que ele, ao se debater para se manter à tona no mar de lama, emporcalha tudo em volta.

Jair Bolsonaro é o mal em si e, como tal, tem o condão de atrair para seu entorno o que há de pior em todos os campos. Depois dele, restarão apenas os escombros de uma República que um dia se pretendeu democrática.

Como todas as afirmações feitas em períodos turbulentos como este, a assertiva acima precisa ser questionada.

E a questão que pode iluminar o cenário é a seguinte: o Brasil tem massa crítica para produzir um longo período de governança democrática estável, e, como tal, sustentável, capaz de suportar sem retrocessos os ciclos naturais do capitalismo global?

Massa crítica, aqui, corresponde aos grupos pensantes e protagonistas, identificados em todos os graus do espectro ideológico aceitáveis numa democracia, atuantes na imprensa corporativa e na mídia chamada alternativa, nas mídias espontâneas das redes digitais, nas universidades, nas organizações sociais.

Essa massa crítica, para ser efetiva e produzir mudanças seguidas de estabilidade, precisa concentrar indivíduos e instituições em quantidade e qualidade suficientes até o ponto em que o fenômeno político do fascismo, que se instala aceleradamente no Estado, possa ser revertido, e a democracia se reestruture.

Essa massa crítica precisa ser coesa em seu objetivo.

Pessoalmente, tendo a considerar que o Brasil tem massa crítica para desconstruir, mas não para projetos construtivos de longo prazo.

Até onde alcança o pensamento nu (chamo de pensamento nu, há muito tempo, a reflexão que não precisa esticar o braço para pegar um livro ou mexer os dedinhos para alcançar uma enciclopédia digital), não vejo luz no fim desse túnel.

Alguém se habilita a contribuir para essa reflexão?

Por exemplo: a imprensa brasileira (de todos os matizes) tem se mostrado à altura das necessidades de informação de fundo, aquela que ajuda a entender a realidade nacional sobre o fundo da História e do conhecimento acumulado pela sociedade?

O Judiciário, tomado em sua totalidade e complexidade, é capaz de produzir Justiça?

A Universidade segue na vanguarda da busca de conhecimento?

Fiz essas ponderações e deixei a pergunta num post do Facebook (https://www.facebook.com/luciano.m.costa.7/posts/10159472891221826?comment_id=10159475824486826&notif_id=1636516303790263&notif_t=feed_comment&ref=notif).

A maioria das respostas não autoriza otimismo.

Escrito por
Luciano Martins Costa