22 de maio de 2022
De quem é a culpa?

De quem é a culpa?

De quem é a culpa?

Nos Estados Unidos, país mais poderoso do mundo, o fosso entre ricos e pobres é assustador. Estive, há dois meses, em Seattle, no Estado de Washington. Cidade rica, charmosa e sede de empresas gigantes como Google, Microsoft, Amazon, Boeing, The Bill and Melinda Gates Foundation (U$ 40 bilhões de dólares de ativos) e da rede atacadista CostCo.  

Nas ruas centrais, tropeçamos em hordas de houseless*. Gente se drogando à luz do dia, indivíduos em desequilíbrio flagrante. Los Angeles, onde vivo, tem o maior contingente de indivíduos em situação de rua do país, 70 mil. Aí compreendidos os que dormem em abrigos ou dentro de carros.  

A pandemia potencializou essas mazelas e jogou mais gente ao desalento. 

Baby Boomers x Milenials 

Em 2017, o escritor americano Bruce Cannon Gibney, que nasceu em 1976, na fronteira entre as gerações “X” (1965 a 1976) e “Y” (Millenials, nascidos de 1977 a 1995), lançou um livro provocador, que tocou fogo na infindável discussão sobre os culpados pelo caos em que hoje vivemos nos Estados Unidos.

O título da obra é direto e provocador: “A Generation of Sociopaths, How The Baby Boomers Betrayed America”, algo como  “Uma Geração de Sociopatas, como os Baby Boomers Traíram a América”. Baby Boomers são os indivíduos nascidos entre 1946 e 1964, no Pós-Guerra.

Houve uma explosão de natalidade no período. O número médio de nascimentos saltou de 2,5 para 3,4 milhões/ano. Um contingente de 76 milhões de pessoas se incorporou à sociedade americana nestes 18 anos.  

Com o “boom” americano do fim da guerra e crescimento econômico que tornou o país a maior potência mundial, foram criados programas sociais para apoiá-los. Por exemplo, aposentadoria aos 62 anos, quando o cidadão recebe um Social Security Check que pode ser ampliado se ele só se retirar aos 65. Enfim, uma rede de assistência social que o autor considera exagerada.  

Gibney acusa os indivíduos dessa camada de ter enriquecido às custas de dívidas para a geração seguinte (a dele). Usa expressão forte: os Baby-Boomers transformaram o dinamismo dos anos 50 em estagnação, provocaram mais desigualdade e criaram um bipartidarismo (Democratas x Republicanos) que é um fiasco. Ele diz, ainda, que os sessentões causaram danos irreversíveis à previdência social, finanças públicas e meio-ambiente. Segundo Bruce, em 2030 isso vai transbordar. 

Reação 

Na internet, especialmente no YouTube, grupos das duas gerações se digladiaram. “Fiz tudo pensando em vocês, no futuro da nação”, afirma um vovô. “Não pedi seu sacrifício'”, diz uma estudante negra, de 23 anos. “Continuamos a ser tratados como cidadãos de segunda categoria pela cor”. Em seguida, a discussão sobre meio-ambiente ficou mais acalorada. E os tornados fora de época do Kentucky, que varreram cidades e deixaram um saldo de 79 mortes, foram imputados à incúria dos “granpas”.

Se não envolvesse assunto tão sério, de sobrevivência do homem na Terra, eu diria que as discussões com acusações frontais foram hilárias. Em tom trágico, Bruce Gibney diz que o livro é uma janela, ainda que passageira, para responsabilizar os Boomers e começar a restaurar a América.  

Txai x Turnberg  ou Somos todos homeless?

No mês de novembro, na COP26 – Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas, a indígena Txai Surui, de 24 anos, representou o Brasil. O governo Bolsonaro se limitou a mandar uma gravação fantasiosa sobre o desmatamento da Amazônia.

Ela pediu ações imediatas pelo clima. Abriu sua fala lembrando do pai, o cacique Almir Suruí. “A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo. Ao contrário da briga americana, Txai elogia o pai, o cacique Almir Suruí. “Meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na Floresta Amazônia. Meu pai, o grande cacique, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores”.  

Em seguida, provando que o ser humano, de qualquer etnia, é belicoso, dirigiu uma farpa aos países ricos. “A Greta Thunberg defende os mesmos pontos de vista que eu. Mas gostaria de lembrar que ela é uma menina branca, do Hemisfério Norte”.  

Chegamos ao ponto. Tudo que se disse pode ser resumido aqui por uma batalha entre ricos e pobres. Os países fortes, que ficam no Hemisfério Norte, e os fracos, abaixo da Linha do Equador.

E você? O que acha da discussão sobre a culpa pelo estágio atual da humanidade? Falta empatia, sobram acusações e disputas. 

Houseless: expressão recente que substituiu homeless, um conceito de lar, que pode ser até um ponto qualquer na rua. A “home” está na alma. A “house” é física. Algo como trocar favela por comunidade.

https://prensa.li/jornalistasonline/de-quem-e-a-culpa/

Escrito por
Laerte Rimoli