25 de maio de 2022
COP26 desenha nosso futuro

COP26 desenha nosso futuro

Em Glasgow, Escócia, negociação climática viveu impasse.

A cena é bem conhecida. Dados, estudos, estatísticas, alertas científicos, escancaram nossa encruzilhada civilizatória. O aumento de temperatura até o final do século é o alerta vermelho sobre o clima e a vida no planeta. Não faltam informações sobre a catástrofe climática. Mas falta e muito, vontade política, senso de responsabilidade, coragem, compromisso dos governantes. 

Sem uma ação mundial decisiva e séria, estamos jogando com a nossa última oportunidade de reverter uma verdadeira emergência global. Nosso ponto de inflexão.

Isso envolve uma realidade palpável de aumento de queimadas, perda de habitat de um terço dos mamíferos no mundo, secas severas mais freqüentes, elevação do nível do mar, inundações costeiras, erosão da biodiversidade, deslocamento de milhões de refugiados climáticos, aumento desesperador da pobreza e miséria. Documento preparado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que 132 milhões de pessoas mergulhem na extrema pobreza até 2030. Não, você não leu errado. O número é este mesmo: corresponde a 60% da população brasileira. 

Glasgow começou com a expectativa de estabelecer metas para a redução da emissão de gases do efeito estufa, financiamento para os países pobres e em desenvolvimento e a regulamentação do mercado de carbono.  

É inacreditável que a chamada governança global não esteja a altura desse momento decisivo. A COP26 termina sem um consenso urgente. Só o tempo da política nos dirá como será, como avaliar as metas e prazos, as promessas de financiamento e ações destinadas à adaptação climática.  Que líderes são esses que nos deixam no vazio aterrorizante? Eles são superficiais, negacionistas das ameaças já visíveis do planeta agredido, violado. Está em curso um ecocídio. Desastre anunciado. Custa a crer nessa cegueira injustificável e na dificuldade de um acordo global realista e consistente.

Teremos sim novos acordos assinados, mas não sabemos ainda quais são as regras e contrapartidas dos governos para o financiamento climático. Ainda não avançamos claramente no mercado de carbono. Mas todo e qualquer esforço para conter o aumento da temperatura são bem-vindos.  E não se iludam. A pressão da sociedade global será determinante para que metas sejam cumpridas. 

E o papel do Brasil em relação a tudo isso?  Como olhar para a Amazônia, a floresta viva, para o Serrado, para a Mata Atlântica, para os povos originários, a cultura indígena? Como será nossa agricultura nos próximos anos?

O governo Bolsonaro derrubou todas as barreiras, todos os entraves e todos os mecanismos de fiscalização que coibiam a ação de grileiros e de garimpeiros ilegais que invadem as terras indígenas, matam, ameaçam, sem nenhum respeito ou qualquer compromisso com a floresta e sua biodiversidade. É um problema dramático ver nossa riqueza natural, nossa diversidade cultural, sendo depredada por criminosos com a conivência do governo. 

Ninguém espera nada do Brasil, nada. Foi-se o tempo em que a política ambiental era considerada estratégica para o Itamaraty e para a credibilidade da nossa política externa. É a primeira vez que o país vivencia um isolamento oficial impactante. A passagem vergonhosa e constrangedora de Bolsonaro no G20 foi o prenúncio da incapacidade do governo construir pontes, estabelecer diálogos e entendimentos sobre questões fundamentais que tocam o Brasil e o mundo. Perdemos a relevância. O Brasil oficial é a grande e patética ausência numa Conferência internacional decisiva. Tudo cheira falso na boca desse desgoverno. 

Não é hora de leniência cínica. Estamos devastando as florestas, tacando fogo, invadindo territórios demarcados, matando rios com mercúrio de garimpos ilegais. Não há mais tempo para ilusões. É uma guerra contra nossa biodiversidade. É um descaso sistemático e vergonhoso. 

Tem saída? Sim. É a movimentação da sociedade brasileira e mundial, como se viu na COP26, pressionando governantes hesitantes. A sociedade tem vida, pulsa, resiste. A jovem ativista indígena Txai Suruí, da etnia paiter-suruí, falou para o mundo na abertura da Conferência. Tem 26 anos, está no último semestre do curso de Direito e criou o Movimento da Juventude Indígena de Rondônia. A brasileira disse que “não há como falar de mudança climática sem falar de pessoas.” 

Essa força da sociedade será responsável por provocar um novo debate interno. É possível incorporar novos modelos de desenvolvimento sustentável, um novo tipo de economia e projeto para a Amazônia, que respeite sua riqueza, articulando novas tecnologias com a sabedoria dos povos da floresta e seus saberes tradicionais. Podemos articular outras políticas, diminuindo a ocupação ilegal e o desmatamento. Há inúmeras possibilidades de financiamento para iniciativas locais em busca de um caminho sustentável, que incorpore o conhecimento tradicional, a floresta, a ciência e a tecnologia de ponta. 

Preservação da natureza, o uso da terra, o respeito aos povos nativos, cabem sim num projeto de desenvolvimento responsável, humano, solidário. 

O debate sobre a questão climática não é vazio de sentido prático, ele incide sobre nossas vidas. A Covid-19 é uma amostra do que está por vir, se não interrompermos a catástrofe ecológica.  Resta tempo para mudar esse roteiro. Quanto? Não sabemos. Mas nosso sistema político e econômico não pode ser incompatível com a vida. 

A democracia hoje é a nossa utopia. Um desafio que liga o desenvolvimento com a idéia de liberdade, bem comum, dignidade, integridade e respeito ao sagrado da existência. Estamos desenhando como viveremos nas próximas décadas. Não é pouco. É uma construção permanente e um compromisso que deixaremos de herança para as futuras gerações, que terão todo direito de celebrar ou lamentar esse legado. 

Escrito por
Carlos Muanis