20 de maio de 2022
Consciência negra, você tem, nós temos?

Consciência negra, você tem, nós temos?

Imagem: Autora

Me preparava para escrever um artigo sobre dois grandes músicos negros com os quais tive o privilégio de conhecer, lembranças afloradas, ideias na cabeça, mas a tal consciência foi se impondo e senti a necessidade de levantar alguns questionamentos em torno da “comemoração” do dia da consciência negra, celebrado em 20 de novembro. Ainda na semana passada, em conversa com uma apresentadora de TV negra, ela me disse: “esse é o mês que os pretos mais trabalham”. E embora a lógica fosse a de comemorar a fartura de oportunidades, havia no comentário uma ponta de tristeza, de decepção. 

Fui catapultada para outros acontecimentos da mesma semana e tudo foi se encaixando. Em diversas reuniões choveram pedidos para a inclusão de negros nos projetos. Nos encontros online, entre clientes e fornecedores todos brancos, os pedidos para dar mais “representatividade” aos negros se repetiam, afinal, estamos no mês da consciência negra… 

Foi uma semana pesada, fazendo a diversidade brilhar nas palavras escritas no papel. Finalmente chegou o sábado, me sinto cansada e resolvo ligar a televisão para uma breve distração. E para minha surpresa ou não, a TV está negra. Eles estão como convidados “especiais”nos programas de TV, nas chamadas das emissoras e nos comerciais. Poxa, será que de repente, as empresas se deram conta que mais metade do país é formada por pessoas negras?

Ensaio um sorriso e quero acreditar que finalmente a ficha caiu, que a sociedade amadureceu, mas minha cabeça insiste em relembrar os outros lances da semana e sou forçada a encarar a realidade. Muito aquém da tal consciência, o que vejo são marcas e empresas tirando uma casquinha, se aproveitando do 20 de novembro para mostrar o quanto valorizam os negros. 

Assim, todo mundo fica feliz e compra muito mais na black friday.

Escrito por
Sylvia Jardim