19 de maio de 2022
Consciência negra e empreendedorismo

Consciência negra e empreendedorismo

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“Nascer negro é consequência, ser negro é consciência” é uma das célebres frases de Zumbi dos Palmares, homenageado com o projeto lei número 10.639, do dia 9 de janeiro de 2003, que instituiu no Brasil o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi.

O pernambucano Zumbi dos Palmares nasceu livre, mas foi escravizado aos seis anos de idade. Ele foi líder do Quilombo dos Palmares, e morreu assassinado em 20 de novembro de 1695. Zumbi lutou até a morte contra a escravidão, que só terminaria em 13 de maio de 1888, com a abolição oficial da escravatura no Brasil, cerca de 193 anos após sua morte. 

Zumbi morreu enquanto defendia sua comunidade e lutava pelos direitos do seu povo; por isso, ele representa a resistência dos negros e a consciência negra. O objetivo do Dia da Consciência Negra é fazer uma reflexão sobre a importância do povo e da cultura africana no Brasil. Também colabora para analisarmos o impacto que os negros tiveram no desenvolvimento da identidade cultural brasileira, o que podemos constatar na música, religião, moda, gastronomia e entre várias outras áreas profundamente influenciadas pela cultura negra.

Afroempreendedorismo – da necessidade para a oportunidade

Dentre os impactos da cultura africana no Brasil temos o afroempreendedorismo. Trata-se de um movimento no qual empreendedoras e empreendedores negros conquistam seu protagonismo como fonte de soluções, pois as tecnologias e metodologias pretas originárias habitam nosso presente e só tende a crescer no futuro. A sabedoria ancestral, de quem empreendeu por necessidade, emerge para o empreendedorismo de oportunidade. 

Embora ainda vivamos as mazelas de um racismo estrutural no País, a voz e a vez das pessoas negras e pardas estão ecoando com mais força à medida que o mercado de trabalho se demonstra vulnerável e com poucos espaços. É justamente pelas “ausências” impostas em nossa sociedade, que o espírito empreendedor teve que aflorar naqueles que precisavam se sustentar quando eram literalmente jogados para fora dos grandes feudos, sem terem a chance de retornar para seu lugar de origem, de onde foram violentamente retirados. 

Seja lavando roupa pra fora, vendendo cocadas nas ruas, costurando ou construindo a própria casa, a população negra empreende há treze décadas, desde o processo de abolição, mas sempre foi algo ligado à necessidade. O empreendedorismo era visto menos como negócio e mais como uma forma de sobreviver. Mas nos últimos 20 anos vimos um salto – da necessidade para a oportunidade. Atualmente, existe um mercado de consumo focado nas especificidades da população negra e empreendedores que estão produzindo para atender a essa demanda.

Não são minoria

Pessoas pretas e pardas representam 56% da população brasileira; e também formam a maioria no empreendedorismo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2014, 51% dos empreendedores são afrodescendentes. Entre os microempreendedores, o número sobe para 56%, de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM).

Em 2018, a PretaHub encomendou uma pesquisa ao Instituto Locomotiva, com o apoio do Itaú. O estudo inédito revelou que se os consumidores negros formassem um país, seria o 11º do mundo em população, com 114,8 milhões de pessoas, e 17º em consumo. O estudo apresentou um panorama do consumo negro do Brasil, do ponto de vista dos consumidores e dos empreendedores, e apontou ainda que a população preta movimenta, em renda própria, R$1,7 trilhão por ano.

Apesar de tudo isso, os negros ainda são sub-representados na comunicação – mais de 90% das campanhas publicitárias têm protagonistas brancos. E, 72% dos consumidores negros consideram que as pessoas que aparecem nas propagandas são muito diferentes deles e 82% gostariam de ser ouvidos pelas empresas. 

Ou seja, a “negritude” não é minoria, embora ainda seja marginalizada. Profissionais pretos então entre quem produz, quem vende e quem compra, movimentando significativamente a economia brasileira. 

Escrito por
Valéria Lapa