14 de outubro de 2021
Vida que segue

Vida que segue

Quando minha mãe tinha 15 anos, hoje ela tem 88, resolveu fazer um manual de como ter e criar filhos bem e na saúde. Chamou esse caderno de ” Caderno de Puericultura ” . Sabia pouco, mas tinha certeza que o caderno iria ajudar e servir de guia. Assim o fez.

O tempo passou, ela casou e teve cinco filhos. Tempos difíceis, de pouco dinheiro e muitas incertezas. Assim que casados foram morar numa casinha pequena e sem fogão a gás. Era a lenha comprada na esquina que esquentava as mamadeiras, a agua pro banho e fazia a comida. Assim nesse cenário nasceu meu irmão Gerson, depois eu, o Rene e o Mauro. O caçula, Rogerio veio numa outra levada: casa maior, chuveiro, geladeira, fogão a gás e até televisão. Meu pai serralheiro dos bons era disputado a tapas pelas montadoras que se instalavam em São Bernardo do Campo. Vinha gente na minha casa e ofertava salários melhores e tantas outras vantagens. Assim fomos crescendo e vivendo. O tempo passando, nós crescendo, estudando, trabalhando e cada um seguindo sua própria estrada. A mãe, em casa, lavando, passando, cozinhando e cuidando de tudo e todos. Sempre nos aconselhando, orientando e prezando pela verdade e honestidade. Uns casaram, outros juntaram teve até quem ficou simplesmente, mas todos na sua jornada. Ela lá: um eterno guarda chuva de amor e cuidados. O tempo bom trouxe noras, genro, netos e netas. O tempo malvado de ruim levou dois filhos… ela chorou, brigou, ficou de mal … mas aguento com o peito ainda cheio de amor. Hoje me deu de presente o ” Caderno de Puericultura ” . Disse que está velha e quer que eu guarde algumas coisas que são preciosas demais para jogar fora. Me alertou que tem mais relíquias para me dar. Não aceitou minha suplicas. Tenho que esperar. Ansiosa e emotiva peguei o caderno, folheei e divido com todos.

Nessa época de tanta dor e egoísmo, minha mãe me reserva seus mais preciosos tesouros. Cuidados, atenção, amor e sabedoria. Não tem ouro e nem prata. Tem sorrisos e lagrimas. De posse de suas duas doses da vacina ela agora espera que toda sua família tome e se proteja. Dispara palavrões sensacionais para quem desprezou a ciência e a vida: “aquele excomungado”, “lazarento dos infernos” e o meu preferido “coiso” . Não se furta de assistir os jornais para poder conversar e proferir pragas e sentenças. Na outra mão tem as orações. Sabe que seu tempo é curto, mas enquanto viver vai nos amar. Obrigada mãe. Eu te amo. PS: ela prometeu pra amanhã um outro presente

Escrito por
Celeste Casella