14 de outubro de 2021
Um é igual a 500 mil

Um é igual a 500 mil

A tia Leonor, de Londrina, tem 83 anos. Mulher delicada, amorosa. A tia dos sonhos de qualquer um. Em 15 de janeiro, a Covid levou seu primogênito. Nilsinho tinha 58 anos, não fumava, bebia socialmente, corria 8 km por dia no Lago Igapó. Filho amantíssimo, morreu 25 dias após contrair o vírus. Ligava três vezes ao dia pra saber como a mãe estava, se precisava de alguma coisa. Deixou mulher, filhos e irmãos. De onde uma senhora como essas tira forças pra continuar a viver? Bombardeada, diariamente, pelo negacionismo do presidente Bolsonaro, ela me disse: odeio esse homem, não posso ouvir a voz dele. Pela primeira vez na vida questionei a presença de Deus. Insônia, inapetência, tristeza profunda agora são suas companhias constantes.

Ao ver as manifestações de protestos pela morte de 500 mil pessoas, me doeu lembrar do primo que se foi. Um indivíduo, uma ausência. Um buraco no coração de quem fica. “Tia, o que posso fazer pela senhora? “. “Ano que vem você vem de carro, me pega e saímos pela estrada, a esmo. Quero ir até as Cataratas do Iguaçu, gostaria de visitar Curitiba”. Trato feito. O imponderável é a marca da nossa existência. Crianças chegam, oxigenam lares. Pessoas partem. É a lei da vida. Mas numa pandemia em que a única alternativa é a vacina, as provas insofismáveis de que o atual governo negligenciou a compra do imunizante impedem que as pessoas assimilem suas perdas.

O insensível ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, deputado federal Fábio Faria, criticou, pasmem, as pessoas que lamentam a morte de meio milhão de brasileiros. Pede que jornalistas se refiram aos 83 milhões de cidadãos que escaparam da doença. Ministro, o senhor é jovem, tem filho pequeno, uma biografia. Não faça isso com minha tia. Não desdenhe da partida do Nilsinho. Coloque-se no lugar dos que choram, todo dia, as saudades de quem partiu. A barbárie que tomou conta do Brasil, as falas grosseiras dos governantes têm como consequência a banalização da morte, mas não refletem o que vai na alma da maioria dos brasileiros. Acho que Bolsonaro e sua turma não tiveram o imenso privilégio de conviver com uma tia como Leonor. Numa sinistra combinação astral, chegou ao poder no Brasil um grupo que não sabe o que é amor. O estrago está feito. Compete a nós recolocar o país nos trilhos da delicadeza, da solidariedade e da empatia. Mãos à obra.

Escrito por
Laerte Rimoli