18 de outubro de 2021
Um discurso, muita confusão

Um discurso, muita confusão

Nesta semana, quem se interessa em observar as transformações que ocorrem na linguagem da imprensa em suas interações com as narrativas das redes sociais tem um objeto de estudo muito interessante: a desastrada frase do presidente da Argentina, Alberto Fernández, na quinta-feira (9/6/21), durante conferência de imprensa ao recepcionar o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

A frase causou grande polêmica por duas razões básicas: primeiro, porque Fernández se esqueceu de aclarar o contexto em que iria incluí-la. Segundo, porque, isolada desse contexto e traduzida com malícia, foi interpretada ainda mais erradamente pela mídia brasileira, transformando-se em uma ofensa a brasileiros e mexicanos e tida como manifestação de soberba e racismo.
A tradução, isolada, ficou assim: “Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva e nós, argentinos, viemos de barco”.

Acrescido de algum preconceito alimentado pelo folclore regional (“argentino é arrogante, argentino é um espanhol que fala italiano e pensa que é inglês”), o evento gerou imediatamente manifestações raivosas nas redes sociais, com igual intensidade em todos os espectros ideológicos que usam a mídia digital para expressar seus ódios e paixões.

E qual foi o erro de Fernández? Ele disse, ao se referir à América Latina: “Porque de Europa, escribió alguna vez Octavio Paz, que los mexicanos salieron de los índios, los brasileiros salieron de la selva, nosotros los argentinos llegamos de los barcos, e eran barcos que venían de ali, de Europa”. A citação atribuída ao poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz (“Los mexicanos descienden de los astecas, los peruanos de los incas, y los argentinos, de los barcos”), na versão de Fernández, é parte de uma canção do roqueiro argentino Litto Nebia, que, aliás, é amigo de longa data do presidente.

Foi um erro duplo, com uma origem comum: errou a fonte da frase, o que se explica porque muita gente pensa que Paz disse tal coisa. E esse equívoco se origina da obra do autor mexicano intitulada “O Labirinto da solidão” (Paz e Terra, 1984, trad. Eliane Zagury), na qual ele registra que, no México, “debaixo das formas ocidentais ainda palpitam as antigas crenças e costumes”. Em uma palestra durante a divulgação do livro, ele teria feito essa síntese sobre as origens de mexicanos, peruanos – e não brasileiros – e argentinos, o que nunca foi confirmado.

Essa abordagem, que tenta mesclar a “civilização” europeia à “tradição” dos povos originais, é parte do discurso recorrente das elites iberoamericanas e se tornou quase uma praxe nas recepções oficiais de próceres espanhóis.
Fernández poderia ter confundido a “zamba” de Litto Nebbia com uma frase de Carlos Fuentes, que também trata dessa simbiose cultural, observando que a memória das origens é, para os latino-americanos, como um espelho enterrado, onde se mesclam as duas vertentes culturais (“El Espejo enterrado”, Fondo de Cultura Económica, 1992).

Mal assessorado, o presidente argentino acaba criando um fato anedótico, que se perpetua na eternidade das efêmeras e apressadas opiniões das redes sociais.
Para apaziguar os espíritos, eis a música de Litto Nebbia, intitulada “Llegamos de los barcos”.

Para ver a letra, clique aqui.

Escrito por
Luciano Martins Costa