20 de outubro de 2021
Qual polarização, cara pálida?

Qual polarização, cara pálida?

O debate político no Brasil foi entortado durante o processo que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, logo após sua reeleição em 2014, e ainda hoje, mesmo com uma predominância de opiniões contra o espectro fascista representado pelo governo Bolsonaro, ainda se apresenta contaminado por platitudes, sofismas e falácias que mal dissimulam o propósito de induzir a determinadas opiniões pré-concebidas.

Para uma aproximação à natureza desse processo, basta perguntar: o que é pedalada fiscal, causa oficial do afastamento da presidente? Um raro interlocutor que saiba responder ainda que grosseiramente essa questão, vai dizer que ela cometeu crime de responsabilidade ao atrasar repasses de verbas para dissimular uma situação fiscal negativa e impopular. Mas há uma profusão de estudos jurídicos recentes demonstrando que não houve crime de responsabilidade nos atrasos de repasse de verbas por parte do Tesouro.

É preciso voltar a essa origem para constatar que o debate atual, em torno da grande quantidade e gravidade de crimes cometidos por Jair Bolsonaro, está viciado na origem, uma vez que a imprensa hegemônica e mesmo jornalistas ditos independentes fogem à responsabilidade de revisitar o processo iniciado em 2015, que conduziu à invasão do campo democrático pela milícia fascista.

Ou resta alguma dúvida sobre o caráter fascista do governo Bolsonaro, com suas constantes ameaças à ordem constitucional?

Dois anos e meio depois de tomar posse, democraticamente eleito, Bolsonaro não passa uma semana sem atentar contra a democracia. E o que se apresenta como mais concreta possibilidade de devolvê-lo ao limbo de onde nunca deveria ter saído? – a eventual candidatura do ex-presidente Lula da Silva, criador da figura política chamada Dilma Rousseff.

Surge, então, o sofisma que denuncia a distorção central na estrutura do debate político: como Lula da Silva aparece nas pesquisas de intenção de voto como provável vencedor da eleição presidencial de 2022, capaz de superar Bolsonaro mesmo no primeiro turno, fala-se sobre a necessidade de uma “terceira via”. Seria o remédio para a “polarização” entre Lula e Bolsonaro.

Onde está o sofisma? Está no fato de que, nesse confronto, postam-se, de um lado, um declarado inimigo da democracia e um ex-presidente que demonstrou, em toda sua carreira, ser um democrata. Foi complacente com a corrupção, conduziu uma política econômica centrada no estímulo ao consumo (o que, como registrei no período, a tornaria insustentável), recuou quando podia ter reduzido o poder do fisiologismo no Congresso, submeteu-se ao caráter corporativista de seu partido. Mas é um democrata.

Portanto, sob todos os ângulos que se observe, a cena mostra que, se há uma polarização no contexto que vivemos desde 2019, ela se dá primariamente entre Bolsonaro e a democracia. Qualquer candidato com votos para confrontar Bolsonaro representaria a democracia, o retorno à normalidade da Política, a grande política, com todas suas falhas e dificuldades.

Dizer que é necessário superar uma suposta “polarização” entre Lula da Silva e Bolsonaro significa aceitar que o atual presidente é um protagonista do jogo democrático, o que ele, definitivamente, não é nem faz questão de ser.

Esse raciocínio torto mal dissimula o espírito arrivista que abriu e concluiu o impeachment de Dilma Rousseff. Afinal, os que buscam uma “terceira via” consideram que o atual presidente seria a primeira e Lula a segunda? Ou vice-versa?

Enquanto Bolsonaro for considerado uma alternativa, não estaremos falando de democracia, eleições livres, instituições garantidas e garantidoras.

“Terceira via” é uma falácia porque com Bolsonaro não há duas vias.

Escrito por
Luciano Martins Costa