18 de outubro de 2021
Política não é para amadores

Política não é para amadores

Se alguém tinha dúvidas sobre quem manda no país, a votação da PEC do voto impresso as dissipou. Vivemos sob o signo do Centrão e o deputado Arthur Lira é o homem mais importante da República. Depois que a comissão especial da Câmara rejeitou a proposta, num golpe de esperteza política, Lira a enviou ao plenário, o que não é praxe. Ali a enterrou. Assim o presidente da Câmara atendeu Bolsonaro, que teve uma vitória de Pirro: 229 votos a favor e 218 contra. Como era uma emenda à Constituição seriam necessários 308 votos favoráveis. Ganhou mas não levou. “O esticar das cordas passou de todos os limites”, disse Lira após a derrota de Bolsonaro.

Traduzindo. A micareta militar, com um melancólico desfile na Praça dos Três Poderes, cuja intenção era demonstrar força e intimidar deputados, foi um tiro que saiu pela culatra. Expôs a imensa fragilidade do ocupante do Palácio do Planalto. O rei está nu e tornou-se piada na redes sociais. A imprensa internacional achincalhou o gesto, comparado-o às pantomimas do ditador da Coreia do Sul, Kim Jong-un. O prestigiado jornal inglês The Guardian chamou o desfile de veículos militares na Esplanada dos Ministérios de “banana-republic-style”. Nem precisa traduzir, né? A cena da fumaça negra expelida de um blindado, sob o olhar atento do ministro da Defesa, Braga Neto e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, marcou o dia da derrota. Solitárias e patéticas autoridades brasileiras a acompanhar o presidente no alto da rampa do Palácio do Planalto.

Como política é coisa para profissionais, o presidente tem que ficar atento a uma expressão que o primeiro-ministro Arthur Lira usou ao encaminhar a PEC para a análise do plenário: “o botão amarelo continua apertado”. Repetiu alerta que já tinha feito sobre a possibilidade de vir a autorizar a abertura de um processo de impeachment. Está sentado sobre 130 pedidos contra Bolsonaro, hoje um homem tutelado. A rejeição à PEC do voto impresso indica que não há quorum para o afastamento do presidente, mas permanece o espaço amplo para chantagem, moeda muito usada no mundo político. Quanto às Forças Armadas, que o presidente chama de “meu Exército”, bem, terão dificuldade em recuperar sua imagem. Completamente chamuscada por se associar aos desvarios do Capitão.

Escrito por
Laerte Rimoli