18 de outubro de 2021
Pic-nic na cratera de vulcão

Pic-nic na cratera de vulcão

O PT quer indicar até síndico de prédio, acusa o PSOL. O presidente do DEM, ACM Neto, o Grampinho, anuncia com estardalhaço a expulsão do ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Este o acusa de “bolsonarar”. Lula é o maior corruptor da história moderna brasileira, diz Ciro Gomes sobre o ex-presidente. Governador João Dória reclama de regras para prévias no PSDB, que disputará com o governador gaúcho Eduardo Leite e o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio. Luciano Huck, do partido da Tv Globo, desiste da candidatura. O ex-ministro Sergio Moro foi abatido em pleno vôo com a decisão do STF de acabar com a Lava Jato. O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que já teve seus 15 minutos de fama, tenta voltar à tona . E o MDB, fiel ao estilo, está no modo-espera, tipo jacaré na beira da lagoa, de boca aberta. Para onde pender a balança, lá estarão os emedebistas.

Pois bem, brasileiros, será que desse balaio de gatos pode surgir um candidato de consenso? Ou o tumulto gerará postulantes independentes, para uma eleição que está ali, à espreita, em outubro de 2022? Pouco mais de um ano nos separa do grande dia. A cavaleiro, surfando na pandemia, escorado no partido do Exército, o presidente Jair Bolsonaro arregimenta forças. As pesquisas indicam que tem 25% do eleitorado, suficientes para chegar a um segundo turno. Atropelando todos os cânones civilizatórios, na defesa de uma pauta do atraso, sem dar a mínima para a economia, que está em frangalhos, o presidente da República pavimenta sua estrada. Conta com o esfacelamento do tecido político. Não há mais, no parlamento brasileiro, atores com capacidade de costurar interesses, aparar divergências. A tal candidatura do centro democrático parece, hoje, uma miragem. O personalismo impede que, com humildade, todos se sentem a uma mesa de negociação e se disponham a conversar sobre o inimigo comum, o atual ocupante do Palácio do Planalto.

A ciranda do poder no mundo

Em 2015, Portugal passava por uma crise sem precedentes. Fuga de capital estrangeiro, agricultura em colapso, queda nos níveis de emprego. Os líderes do campo da esquerda, Jerónimo de Souza (Partido Comunista Português), Catarina Martins (Bloco de Esquerda) e António Costa (Partido Socialista) se juntaram e criaram um novo governo que recebeu o sugestivo nome de Geringonça, tal a disparidade de interesses. Os 3 partidos estão no poder até hoje. Por ter a maior bancada, o Partido Socialista indicou o primeiro-ministro, António Costa. Seria, grosso modo, como se Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Marcelo Freixo (agora no PSB), chegassem a um consenso. Lula abriria mão de ser cabeça de chapa? Alguém acredita nessa união?

Benjamin Netanyahu, o Bibi, governou Israel, com mão de ferro, nos últimos 12 anos. Sob uma saraivada de denúncias de corrupção contra o mandatário, 4 eleições consecutivas foram realizadas. Nenhuma conseguiu removê-lo do posto. Eram necessárias 60 cadeiras no Parlamento, o Knesset. Os grupos políticos que queriam ver Bibi longe e julgado pelos crimes que o acusam de ter cometido, tomaram uma decisão extrema. Se a coalizão de Portugal é a Geringonça, podemos chamar a composição de Israel de Monstrengo: 2 partidos de esquerda, 2 de centro, 3 partidos de direita, 1 partido árabe, pela primeira vez num governo de Israel. Esse grupo escolheu como primeiro-ministro um milionário ultradireitista, de origem americana, Naftali Bennett. O pano de fundo dessa disputa é a autonomia Palestina. Diante dessa salada esdrúxula, ainda há espaço para a volta à cena política do antigo premier, acreditam os analistas internacionais.

Chegamos aos tristes trópicos, mais precisamente ao Peru. O mundo assistiu, também com espanto, uma briga de poder que não será benéfica para o principal interessado, o povo. De um lado, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, preso por corrupção e crime de lesa-humanidade. Principal ítem da sua plataforma: libertar papai. De outro, Pedro Castillo, um professor de escola elementar, que surgiu na política ao comandar a greve da categoria em 2017. Seu partido, Peru Libre, se apresenta como marxista-leninista. Um salto no escuro. Não ficou claro o que fará na presidência. Resultado do embate: vitória apertadíssima de Castillo. Diferença de apenas 40 mil votos num eleitorado de 25 milhões. Impasse. A Justiça Eleitoral peruana ainda não declarou o vencedor, mais de uma semana depois das urnas fechadas.

Portugal, Israel, Peru. Cenas de uma luta fratricida que vão passando feito caleidoscópio. Vitórias imprevisíveis, batalhas que não se encerram com o fim da contagem. O mundo está dividido. A vida moderna incorporou a pós-verdade, as fakenews. A arena política usa a ferramenta sem pudor. No país mais rico do mundo, assistimos a invasão do prédio do Capitólio, sede do legislativo, insuflada por Donald Trump, então no poder. A vitória de Joe Biden ocorreu por margem pequena: 80 milhões a 74 milhões de votos. Mesmo com a selvageria ocorrida em Washington. O Senado americano está dividido: 50 democratas e 50 republicanos. Embora as sociedades aqui citadas sejam completamente díspares, com peculiaridades próprias, o que essas histórias ensinam aos brasileiros é que não teremos vida fácil. O ano de 2022 promete. Bolsonaro prepara sua tropa para resistir a uma possível derrota. Nunca o país esteve tão dividido. O que se espera dos homens públicos são artigos escassos hoje no mercado: juízo e mais do que nunca, espírito democrático. Até aqui, o que temos são insensibilidade e egoísmo. Em outras palavras: estão fazendo pic-nic na cratera do vulcão.

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Escrito por
Laerte Rimoli