14 de outubro de 2021
Ministério da saúde adverte: este texto contém ironia!

Ministério da saúde adverte: este texto contém ironia!

A primeira delas: o Brasil não tem Ministério da Saúde há pelo menos mil dias, portanto uma advertência de tal instituição e um cachorro cagando têm o mesmo valor. A segunda delas: vou falar sobre uma coisa que nunca vi, nunca li, nunca ouvi – as opiniões do suposto jornalista chamado Narloch. Nem sei se esse é o verdadeiro nome, parece um pseudônimo tirado de um desses filmes de mutantes. Mas tudo bem. A imprensa está cheia de textos escritos por gente ignorante sobre as coisas que ignora e as pessoas pagam pra ler essa merda. Eu incluído. A terceira ironia: falo também de coisa que conheço bem – o jornalismo brasileiro, e em especial o da Folha de S. Paulo.

Não vou repetir o que diz neste domingo o ombudsman do jornal. – fui convidado uma vez para ser ombudsman de um veículo de comunicação e, quando comecei a especular sobre suas entranhas, fui rapidamente desconvidado. Portanto, sei que essa função é mais ou menos como um vegano trabalhando num açougue, isso quando o profissional tem alguma consciência do que faz.

Sobre o tal Narloch e a tempestade que provocou ao tentar dissimular a nódoa da escravidão, entendo que é essa exatamente a intenção da Folha ao recontratar uma pessoa com esse perfil: faturar as atenções no campo do identitarismo, que teria coisas mais importantes a discutir. Oficialmente, o jornal alega que, ao dar voz a racistas, negacionistas e outras bizarrices do nosso tempo, está contemplando a “diversidade de opiniões”.É verdade.

Se observarmos alguns dos outros colunistas, vamos notar, por exemplo, que essa política inclui até mesmo pessoas com deficiência cognitiva, como Catarina Rochamonte e Hélio Beltrão (filho, acho), ou gente que aprecia o auto-flagelamento, como o humorista Pondé (sim, é humor o que ele faz, um tipo esquecido de humor, antigamente representado pelos bufões das cortes). E, sim, ao fazer essas afirmações, estou enriquecendo a “diversidade” defendida pela Folha. Poderia acrescentar que algumas opiniões publicadas nos editoriais mal dissimulam o ranço fascista que rosna nas entranhas da imprensa brasileira, disfarçado em cinismo, ceticismo, o que também faz parte do estranho contexto em que vivemos.

Ah, isto não é ironia.

Escrito por
Luciano Martins Costa