18 de outubro de 2021
Jornalões optam pelo acessório

Jornalões optam pelo acessório

Omissão colabora para manter a grande dúvida: quem mandou matar Marielle?

Wilson Witzel depões na CPI, 16 de junho de 2021
Foto: Orlando Brito


Nesta quinta-feira, 17 de junho, um dia após o depoimento do ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, na CPI da Pandemia, os jornalões e seus espelhos na internet projetam no primeiro plano o bate-boca entre o depoente e senadores governistas. Apenas em um distante segundo plano, registram burocraticamente o trecho do depoimento em que o ex-governador disse que revelaria – em reunião sob segredo de justiça com os senadores que integram a CPI – informações “muito graves” sobre um episódio confuso da história recente do país. Witzel prometeu contar o que sabe sobre uma história muito mal contada que envolve o porteiro do condomínio onde moram o presidente da República, Jair Bolsonaro, e Ronnie Lessa, acusado de ser o autor dos disparos que mataram Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes.

Witzel referiu-se ao depoimento do porteiro do condomínio depois modificado, no qual conta que, no dia do duplo assassinato, o ex-PM Elcio Queiroz, motorista do automóvel de onde partiram os tiros, esteve no condomínio e anunciou na portaria que iria na casa do “seu Jair”. Bolsonaro, à época, era deputado federal.

A versão do porteiro ganhou ampla reportagem no Jornal Nacional daquele dia e alcançou Bolsonaro em Dubai, voltando de uma viagem oficial à Arábia Saudita. Colérico, o presidente convocou os jornalistas que acompanhavam a comitiva para desmentir o porteiro e repetir alguns dos seus habituais impropérios – “patifaria”, “canalhice” – que já havia soltado antes em sua página do Facebook.

De volta ao Brasil, mandou recolher as gravações do aparelho da portaria do condomínio – sem que a polícia comprovasse sua autenticidade– “antes que fossem adulteradas”. E ficou por isso mesmo.

Bolsonaro apresentou como defesa o fato de que se encontrava em Brasília no momento em que o motorista chegou ao condomínio. É verdade. Mas é verdade também que o aparelho da portaria tem o recurso da comutação, ou seja, poderia conectar-se diretamente com o celular de Bolsonaro, conforme foi noticiado pelo site de notícias GGN, do jornalista Luís Nassif. A polícia nunca mais tocou no assunto.

A oferta de Witzel de apresentar novas informações sobre o caso não foi considerada pelos jornalões, assim como não traz maiores informações sobre sua fala de que seu “calvário” começou com as investigações que levaram Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz para a prisão.

Sem pressão e com omissão, a grande imprensa colaborou para manter a grande dúvida do Brasil: quem mandou matar Marielle?

Escrito por
Alceu Nader