18 de outubro de 2021
Fome, uma companhia permanente do Brasil

Fome, uma companhia permanente do Brasil

A pandemia da Covid-19 está próxima de ultrapassar a maior tragédia humanitária da história do Brasil, que foi a seca de 1877-1879. As estimativas do passado remoto sempre geram dúvidas, mas o fato é que os registros apontam que morreram 500 mil pessoas e outras 68 mil foram obrigadas a migrar. O número de mortos assusta, ainda mais se considerando que a população do Brasil, na época, era de cerca de 14 milhões de pessoas.

A mortandade não se deu apenas pela seca, mas principalmente pela epidemia de varíola que se disseminou entre os flagelados. O Ceará foi o estado mais atingido e, como hoje, seu sistema hospitalar entrou em colapso. O imperador dom Pedro II, comovido, visitou a região e prometeu até “a última joia da coroa” para ajudar os miseráveis. O dinheiro nunca chegou, mas ficou cunhada a expressão.

A academia também se interessou pela fome. As primeiras teses a tratar do assunto cientificamente surgem as faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, únicas existentes na época.

Falta um - Orlando Brito
Falta um – Orlando Brito

Há séculos, a fome pontua a história do Brasil, mas o combate de seus efeitos, com raríssimas exceções, sempre foi paliativo.

A fome que assola o Brasil não está restrita a uma região e chama a atenção no exterior. Reportagem sobre o Brasil da revista Economist, a de maior prestígio no mundo, de 13 de maio passado, lembra “a volta de um velho flagelo” relacionando a pandemia com o rápido crescimento da fome no nosso país – e a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU.

Desde que foi criado pela ONU, há 47 anos, o Brasil esteve fora do Mapa da Fome por apenas sete anos – entre 2014 e abril passado. Três decisões políticas, dos governos Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff colaboraram para tirar o país do Mapa da Fome. Por ordem de importância, eles foram: a oferta merenda escolar durante o ano inteiro, a valorização do salário mínimo e o programa Bolsa Família.

Euclides da Cunha, Bahia
Euclides da Cunha, Bahia

O espectro da fome que hoje atinge mais de 50 milhões de brasileiros começou a mostrar sua cara feia com o desemprego iniciado no governo Dilma, tornou-se um fantasma com o fim da valorização dos salários e com os cortes dos programas sociais no governo Temer e tonou-se um monstro depois de mais cortes dos programas, do enfraquecimento do Bolsa Família e do pouco caso com a covid-19 de Jair Bolsonaro. A pandemia se instalou, e o que já era ruim ficou pior.

Em dezembro passado, depois de nove meses de pandemia, o Brasil já tinha 19 milhões de pessoas, ou 9% da população, sem ter o que comer, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Hoje, menos de seis meses depois, a fome aflige mais de 50 milhões, conforme aponta a Fundação Getúlio Vargas.

Enxergando - Orlando Brito
Enxergando – Orlando Brito

Por que tudo piorou tão rápido?

A resposta é que o combate à fome não foi e não é prioridade do governo Jair Bolsonaro. Em seu primeiro dia de governo, 1º de janeiro de 2019, uma de suas primeiras decisões foi extinguir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Consea, criado no governo Fernando Henrique Cardoso. O Consea era vital, pois por ele passavam todas as políticas que garantiam a segurança alimentar da população.

Outro sinal da desimportância diante da fome que se alastrou foi a demora para o governo tomar providências. A pandemia pegou o Brasil em cheio em março de 2020, mas os primeiros pagamentos do auxílio emergencial, de R$ 600 reais por mês, só começaram a ser pagos em agosto, e, pior, foram interrompidos em dezembro.

Neste ano, quando a letalidade da covid-19 multiplicou o número de mortes, o auxílio de emergência demorou quatro meses para ser retomado, caindo dos R$ 600 anteriores para um valor que varia entre R$ 150 a R$ 375, por mês, deixando de fora 22 milhões de pessoas que haviam recebido em 2020. Resultado: a fome se alastrou.

A maior ironia da permanência da fome na nossa história é que o Brasil teve um cidadão brasileiro, pernambucano, filho de mãe branca e pai negro, chamado Josué de Castro, indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz por seu combate à fome no mundo.

A dor alheia - Orlando Brito
A dor alheia – Orlando Brito

Autor dos clássicos “A Geografia da fome” e “Homens e caranguejos”, ele foi médico, geografo, ensaísta, romancista e deputado federal, e o primeiro presidente da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura.

Josué de Castro foi o primeiro a comprovar que a fome não era problema de uma região ou de um país por razões climáticas ou étnicas, mas sim por razões sociais herdadas do período colonial que não mudaram nem quando as ex-colônias se transformaram em repúblicas independentes. “Os pobres continuam pobres”, escreveu ele, “porque moram mal, comem mal – ou não comem – e não têm acesso aos serviços essenciais”.

Josué de Castro, homem negro, brasileiro, indicado quatro vezes ao Nobel da Paz - Crédito: Memorial da Democracia.
Josué de Castro, homem negro, brasileiro, indicado quatro vezes ao Nobel da Paz – Crédito: Memorial da Democracia.

Ele foi um dos primeiros a serem cassados pela ditadura militar de 64. Exilou-se na França e lá morreu, em 1973, como professor de Geografia da Universidade de Vincennes, mas voltaria ao Brasil nos anos 90, trazido pelo Manifesto Manguebeat, o movimento musical encabeçado por Chico Science.

Os movimentos de caranguejo de Chico Science têm a ver com a personagem homem caranguejo criado por Josué de Castro. Na letra da música “Da lama ao caos”, a ligação é direta: “Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça/Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

Seca (1877 a 1879): maior tragédia humanitária da história do Brasil.
Seca (1877 a 1879): maior tragédia humanitária da história do Brasil.

Saiba mais:

Josué de Castro – Cidadão do Mundo
O mundo é uma cabeça – Entrevista Chico Science
Da lama ao caos – Chico Science e Nação Zumbi
Escrito por
Alceu Nader