18 de outubro de 2021
É quase inverno, mas a temperatura está subindo

É quase inverno, mas a temperatura está subindo

Há uma sucessão de fatos que apontam para a rápida elevação da temperatura politica do país. A CPI da Covid, os protestos nas ruas e nas sacadas, a questão militar, a piora da pandemia em meio à lenta vacinação, tudo vai contribuindo para a formação de um ambiente ainda mais pesado.

A crise tem nome, já disseram muitos, e obviamente se chama Jair Bolsonaro. O problema é a ausência de alternativa ao caos. A dimensão dos protestos de rua do dia 29 de maio pegou de surpresa os líderes políticos da oposição. Muitos nem concordavam com as manifestações. Como sempre, as ruas saem na frente, com ou sem pandemia. Os políticos seguem atrás.

O maior panelaço desde 2019 também ocorreu depois de uma mobilização meteórica nas redes sociais, ofuscando a fala medíocre do presidente (o Planalto anunciou o pronunciamento em cima da hora, acreditando que não haveria tempo para um panelaço).

Montagem com duas fotos. À esquerda, o presidente Jair Bolsonaro passeia de moto no Rio de Janeiro. À direita, manifestantes em Brasília pedem o impeachement. Fotos de Orlando Brito feitas no dia 23 de maio de 2021.
Domingo (23/5/2021) – Bolsonaro passeia de moto no Rio de Janeiro e manifestantes em Brasília pedem o impeachment do presidente. Crédito: Orlando Brito.

A comprovação de um “gabinete das sombras”, na sexta-feira, dia 4/6, também não foi obra direta dos políticos da oposição. Foi a imprensa (a sempre demonizada imprensa), através do portal Metrópoles, de Brasília, que revelou o grotesco vídeo de médicos defendendo drogas ineficazes e falando contra vacinas diante do presidente da República.

A prova do crime, claro, vai desaguar na CPI da Covid, juntando-se a um volumoso conjunto de evidências sobre o desgoverno na pandemia, já guardado nos cofres do Senado.

Mas a questão militar foi a que mais alarmou o país nos últimos dias, pelo perigo que representa a indisciplina e a subordinação cega de uma instituição armada, de Estado, às vontades do chefe de governo. Depois de um longo suspense, o comando do Exército decidiu não punir o general Pazuello por ter comparecido e falado naquele ato público convocado por Bolsonaro, a tal da “motociata” no Rio. A decisão foi condenada por 99,9% dos políticos e militares da reserva que concordaram em fazer comentários pela imprensa. Só para dar um exemplo, o general da reserva Santos Cruz, ex-ministro rompido com o governo Bolsonaro, atacou de frente o presidente da República, afirmando em nota:

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Foto: Orlando Brito
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Foto: Orlando Brito

“À irresponsabilidade e à demagogia de dizer que esse é o ‘meu exército’, eu só posso dizer que o ‘seu exército’ NÃO É O EXÉRCITO BRASILEIRO (formato do autor). Este é de todos os brasileiros.”

A divisão militar está patente mas ninguém arrisca prever os desdobramentos da crise. Na verdade, como disse ao Jornalistas Online o ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann, o mundo civil fala muito pouco com o mundo militar. A suposição mais próxima da realidade, até o momento, é a de que os militares não vão embarcar numa aventura golpista, muito menos com o tresloucado Bolsonaro no comando.

Enquanto tudo isso acontecia o país fechava a primeira semana de junho com mais de 470 mil mortos por covid. E as principais lideranças políticas prosseguiam na mesma perplexidade, sem ao menos dar início a um diálogo em torno de alternativas comuns para o futuro próximo. 2022 está chegando.

Escrito por
Renato Faleiros
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