18 de outubro de 2021
Demarcar as telas

Demarcar as telas

São pouco mais de três meses do Coletivo Jornalistas Online. Três meses de uma proposta inovadora, três meses de intenções, de realizações, de desafios. Não é fácil empreender no campo da informação no mundo virtual. Somos experientes, vindos de redações de rádio, jornal e televisão, mas a internet, ah, a internet…uma verdadeira cobra de mil cabeças, um campo quase desconhecido, repleto de particularidades e nuances.

Nesse terreno das telinhas e lives, nem sempre o conteúdo é rei, mas com fé e trabalho sério seguimos em busca dos cliques que darão eco às discussões que importam e que em algum momento poderão colaborar para reduzir o caos reinante no Brasil. E por falar em voz, este artigo vem após a grande emoção daquela que considero a melhor entrevista já realizada pelo nosso Coletivo e apenas uma pequena parte deste elogio se deve à experiência e tenacidade de nossos entrevistadores, o grande brilho emanou da entrevistada.

A jovem líder Kãdara Pataxó deu uma aula de vida para todos nós. E se alguém ainda tem dúvidas sobre a importância e a relevância da discussão da demarcação das terras indígenas, sugiro que assista à entrevista na íntegra.

Este agosto indígena vem carregado da esperança de que as decisões do Supremo Tribunal Federal, com relação ao projeto de lei PL 490 não sejam um “pacote de morte” para os povos originários. Estamos falando de 305 povos reconhecidos e 274 línguas faladas.

Para mim, que sou uma indirri, ou seja, uma branca na língua dos Pataxós, ouvir Kãdara contar que nasceu, cresceu e criou seus filhos em territórios indígenas e que os povos originários se preocupam em retirar da terra somente o necessário para a sobrevivência foi apenas o começo da emoção. A jovem falou da invisibilidade dos povos indígenas ao longo da história e que para sobreviver foi preciso aprender a lidar com as adversidades, com as lutas e com o preconceito.

A cada nova reflexão às perguntas propostas por nosso enebriado grupo de jornalistas, Kãdara nos remetia às nossas próprias fragilidades, nossa visão estreita e limitada da questão indígena. A líder Pataxó estudou na comunidade, não foi à faculdade, mas a educação e o respeito que nela habitam são raros de se ver. À medida que a entrevista caminhava para o final e ao acompanharmos juntos um clipe de imagens dos diversos povos se manifestando em Brasília, Kãdara rompeu em lágrimas e arrebatou definitivamente nossos corações. Nada do que eu possa escrever traduzirá melhor esse momento. Acompanhe no link abaixo.

O coletivo, muito acima do individual!

E Kãdara Pataxó arrematou: “Todo brasileiro tem sangue indígena, nas mãos ou nas veias”. E na simplicidade e grandiosidade de sua fala nos disse que a criança indígena já cresce no ambiente de comunidade, já sabe que tem que servir e ajudar o próximo, e mesmo quando há diferenças, os pequenos já aprendem que quando a causa é coletiva todos precisam estar unidos. E assim, volto ao começo deste artigo. Somos um coletivo, com muito a aprender com os povos que estavam aqui, muito antes da Constituição de 1988.

E o incrível aconteceu, Kãdara ainda agradeceu aos Jornalistas Online. Nós sim, é que somos gratos. Os povos originários são a história viva!

Escrito por
Sylvia Jardim