18 de outubro de 2021
“Causos” da Política

“Causos” da Política

No início dos anos 80, o senador Tancredo Neves vivia um quase ostracismo na política. Até o gabinete dele indicava isso. Ficava no andar de baixo da sala da presidência do Senado, na ala oposta ao salão de barbeiro e lojinha de conveniência. Os gabinetes de gente poderosa ficam mais próximos do plenário, local dos embates. Meu chefe de então, o cearense de Itapipoca, Antonio Teixeira Jr., o Teixeirinha, me deu uma missão. “Há um senador, a quem ninguém presta atenção, que se tornará o homem mais importante desta República. Cole nele. Antes de cumprir suas pautas passe lá, todo dia, e crie intimidade”. Obedeci. Isso só foi possível porque dona Antônia, chefe de gabinete, gostou de mim. Ela barrava visitantes que não passavam pelo seu crivo. Quantas vezes me pôs no gabinete e deu chá de cadeira em políticos. “Entra, Laertinho, o senador está te esperando.”

Um dia, cumprindo a via sacra a que me impus, por volta do meio-dia, visitei o novo amigo. Ele tinha um gesto teatral, um tique nervoso, quase um vício. Mordia a ponta da gravata. Era o presente que mais recebia nos aniversários, me contou Antonia. Estava num “mood” diferente naquele fim de manhã, deu pra notar. “Laertinho, senta aí. Você já viu um país comandado por um general que se preocupa mais com cavalariços do que com seus cidadãos?”. Quase dei um pulo na cadeira. Seguiu desafiando atitudes do presidente João Figueiredo, num tom ameaçador de político radical. Fiquei zonzo, corri para a redação e relatei para o chefe a estranha conversa. “Senta aí e escreve tudo isso”. Teixeira, o homem não deu declaração, era nossa conversa cotidiana. “Quem manda aqui? Seu emprego está garantido”. Dia seguinte, manchete do conservador Jornal O Globo: Tancredo diz que Figueiredo não é um estadista.

O senador convocou uma coletiva de imprensa. O gabinete ficou pequeno, dona Antonia reservou um dos auditórios do senado. Apreensivo, fiquei na primeira fila. Com sua voz calma, medindo as palavras, a velha raposa de Minas fuzilou. “O Senado é a Câmara Alta da politica nacional, local de homens experientes. A imprensa, especialmente os veículos mais respeitados, deveria levar em conta essa característica antes de colocar jovens profissionais nesta arena. Todos que me conhecem sabem que frases a mim imputadas jamais sairiam da minha boca”. Afundei na cadeira, os colegas foram se retirando. Ele desceu a escadinha que separava o tablado da plateia, bateu carinhosamente a mão na minha cabeça e sentenciou: “aprendeu, Laertinho?”. O recado foi dado aos militares, as conversas de bastidores que desembocaram na eleição indireta do senador corriam frenéticas. Grande Teixeira, saudades imensas.

No dia 28 de junho, 2021, o presidente Bolsonaro desalojou o general Luiz Eduardo Ramos da Casa Civil da Presidência da República. A tropa de choque do Centrão, tendo à frente o senador Ciro Nogueira (PP-PI), assumiu, triunfante, o posto, responsável, entre outras coisas, pelo preenchimento de cargos na burocracia federal. Não é pouca coisa em ano pré-eleitoral. A troca não foi pacífica. O Partido Militar tentou reagir ao assalto. Na segunda-feira que precedeu ao ato, aproveitando-se da ausência de Ciro, retido no México por uma pane no avião que o trazia, a ala verde-oliva tentou reverter a decisão, o pau comeu na casa de Noca. Venceu o núcleo político, afinal o presidente precisa de blindagem contra 127 pedidos de impeachment que estão no colo do presidente da Câmara, Arthur Lira, sócio de Nogueira.

Acoelhado depois da refrega, o general Ramos deu as boas-vindas ao senador e algoz e disse que segue no governo em nova missão, agora na Secretaria-Geral do Palácio do Planalto. Mantém polpudo holerite, que se soma ao soldo do Exército. Cargo burocrático. O tiro de canhão nos militares foi dado por Lira em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, uma semana antes da troca de comando no Gabinete Civil. Em conversa com a experiente jornalista Vera Rosa, na presença da diretora da sucursal do jornal em Brasilia, Andreza Matais, o presidente da Câmara, candidamente, reproduziu ameaça feita às eleições do ano que vem pelo ministro da Defesa, general Braga Neto.

A mesma cantilena do presidente Bolsonaro contra urnas eletrônicas. Se não houver voto impresso as eleições correm risco, teria dito o general a um dos 11 partidos que compõem o Centrão. Verifiquem os nomes, vocês chegarão ao interlocutor de Braga Neto, disse Lira às jornalistas do Estadão. Simples, o interlocutor foi o senador Ciro Nogueira. Houve nota do ministério da Defesa, desmentido, tudo para inglês ver. O recado estava dado, o estrago nas hostes militares perpetrado. Assim acontece no mundo político. Cobra engolindo cobra. E o jornalismo é a ponte entre esses dois mundos. Aliás, intérprete deles.

Escrito por
Laerte Rimoli