18 de outubro de 2021
Buscar um mundo melhor

Buscar um mundo melhor

Sonhava ser jornalista desde pequena, quando dividia poucos cômodos com mais quatro irmãos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, muito antes do metrô e do estádio. Acordava de madrugada ouvindo o rádio, que meu pai ligava enquanto se arrumava para trabalhar como mecânico. Minha mãe também já estava de pé. Era empregada doméstica e, muitas vezes, precisava pegar duas conduções para chegar ao trabalho. Ficávamos aos cuidados dos avós portugueses, que eram tão rígidos quanto carinhosos.

Eu ouvia as vozes no rádio e ficava encantada com as músicas, as conversas e histórias, mesmo as que narravam os crimes. A imaginação ia longe e eu também queria falar naquele aparelho pequeno e barulhento. Queria dizer para todos como viviam as famílias e os imigrantes no bairro. Eram, principalmente, portugueses e italianos que moravam na periferia e sofriam com a falta de água, asfalto, com ônibus e trens lotados.

Márcia Nepomuceno, aos 10 anos.
Arquivo Pessoal.

Estudei a vida inteira em escola pública e tive a sorte ao encontrar professores que me incentivaram a cursar faculdade, mesmo quando tudo ao redor parecia dizer não. Em 1978, minha mãe resolveu voltar para a minha cidade natal, Campinas, e ficar perto da família dela. Foi a guinada da minha vida. Aos 15 anos comecei a trabalhar como office girl. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Aos 17 anos entrei na imponente PUC Campinas, no curso de Comunicação Social – Jornalismo. Naquele lugar, fiz amigos pra vida toda, mas também senti na pele as diferenças gritantes da nossa sociedade.
No campus, havia os que chegavam em seus carrões e havia alunos, como eu e alguns colegas, que dividiam sanduíche no lugar do jantar.

Foi dureza, mas no segundo ano de faculdade larguei o emprego no escritório e fui viver meu sonho. Aos 19 anos e cheia de planos, eu havia conquistado meu lugar como repórter numa rádio em Jundiaí. Nunca mais parei. Passei boa parte da vida em redações de rádios, jornais, TVs e produtoras.

Hoje, 38 anos depois, ainda carrego a vontade de falar sobre a vida real, com sua magia e desencantos. O convite para fazer parte do coletivo Jornalistas Online me dá um baita orgulho e um frio na barriga, de novo. Oxalá eu possa contribuir por um jornalismo plural e verdadeiro.

Escrito por
Márcia Nepomuceno