23 de outubro de 2021
Bolsonaro começa a derreter

Bolsonaro começa a derreter

Os índices de aprovação do presidente Jair Bolsonaro entram em fase de derretimento, a se julgar pela pesquisa Datafolha publicada nesta sexta-feira, 17/9.

Os números mais visíveis apontam uma avaliação como “ruim ou péssimo” por 53% dos entrevistados, enquanto, no outro extremo, 22% ainda consideram seu governo “ótimo ou bom”. No campo cinza, 24% o consideram “regular”.

Mas é nos detalhes que se revela a inclinação da ladeira: apenas os empresários, os mais ricos (hipoteticamente menos afetados pela crise econômica) e aqueles que rejeitam qualquer opção ideológica à esquerda do centro (espectro que, na elaboração da consulta, abrange desde o PSOL, PT, PSDB e até o MDB), possivelmente composto pelo núcleo duro do bolsonarismo.

Os analistas da Folha de S. Paulo consideram que o desgaste se acentua após as manifestações antidemocráticas do dia 7 de setembro, seguida de seu recuo imediato, induzido e conduzido pelo ex-presidente Michel Temer.

Mas é preciso atentar para outros detalhes, como o fato de que não houve mudança no número dos que apontam como “regular” seu desempenho, em relação à consulta anterior, feita em julho.

Tomados em suas especificidades, os grupos em que são divididos os consultados mostram uma rejeição mais consistente entre pessoas com potencial de influência, como estudantes, jovens entre 16 e 24 anos de idade, homossexuais e bissexuais e mulheres.

A reprovação é elevada entre os mais pobres e os de maior escolaridade, mas também é significativa a contaminação das classes médias, que em julho se mantinham mais próximas do conceito “regular”.

Tomados sobre o pano de fundo das perspectivas eleitorais de 2022, os números colhidos pelo Datafolha desenham um quadro no qual esvazia-se o argumento de Bolsonaro, segundo o qual “o povo” deseja que ele sequestre poderes do Judiciário e do Parlamento.

Deve-se esperar, portanto, uma fase de seu protagonismo em que irá buscar mais negociação do que confronto.

A menos, claro, que fatos novos venham a reduzir ainda mais suas chances de reeleição. Um desses fatos poderá ser o desembarque das igrejas neopentecostais, que sofrem queda de receita sempre que os fieis enfrentam perda de renda. Líderes desses grupos, como Silas Malafaia e Marco Feliciano, dão sinais de aborrecimento com a simpatia do presidente à ideia de permitir a abertura de cassinos, trazida por lobistas da máfia de Las Vegas.

A pesquisa Datafolha não se refere diretamente às eleições de 2022, mas oferece um panorama inédito desde a posse de Bolsonaro: consolida-se a perspectiva de ser defenestrado pelas urnas e já ninguém se impressiona com seus rosnados.

O rei está nu e, olhando de perto, não é grande coisa.

Escrito por
Luciano Martins Costa