19 de maio de 2022
Cannabis, droga ou remédio?

Cannabis, droga ou remédio?

Cannabis, droga ou remédio?

Se alguém te dissesse que, no mesmo dia em que Portugal descobriu o Brasil, o Brasil descobriu a Cannabis, você acreditaria? Pois pode acreditar porque é verdade! Só que ela não veio na forma de erva, mas sim de fibras de cânhamo, uma variação da Cannabis, usada na confecção de tecidos, roupas e cordas.

A esta altura, alguém também pode perguntar: por que um careta declarado como eu, que nunca experimentou nenhum tipo de tabaco – juro que é verdade! – tem interesse em Cannabis?

Fato é que gostaria de produzir um documentário sobre o tema e, ao pesquisa-lo, descobri curiosidades incríveis, que compartilho com vocês neste artigo. Uma das fontes mais interessantes e divertidas que utilizei foi o canal do historiador Eduardo Bueno, que postou diversos vídeos que abordam a maconha com muito bom humor e nos auxiliam a entender por que a erva tem uma história tão fascinante.  

Cannabis, popularmente conhecida por maconha, é provavelmente a droga (?) mais conhecida e consumida em todo mundo. Objetivo deste texto é resgatar a trajetória desta erva exótica e milenar, que já ocupou lugar de destaque na farmacopeia mundial, antes de se tornar uma das drogas mais polêmicas do planeta. Optei por tratar essa questão sob uma ótica mais abrangente, à luz de uma análise realista e científica da Cannabis, mas respeito a visão individual de cada um.  

De um lado testemunhamos governos liberando o uso da maconha, entendendo que o consumo controlado não afeta a saúde como ocorre com as drogas de origem química. De outro, pesquisadores e médicos defendem o uso da Cannabis como medicamento. Há também um terceiro grupo de empreendedores, que estão construindo negócios milionários que têm a Cannabis e seus derivados como matéria prima. 

Um pouco de história

O primeiro registro histórico do uso da erva como medicamento data de 2.700 a.C e foi publicado no livro chinês Pen Tsao. A origem provável é o Afeganistão, mas tornou-se popular na Índia, usada em rituais religiosos e como medicamento.

Na mitologia indiana, Cannabis era o alimento preferido da deusa Shiva, e havia uma bebida chamada Bhang, à base de maconha, que seria uma das formas de se aproximar da divindade. Na tradição Mahayana do budismo, consta que antes de Buda alcançar a iluminação, ficou seis dias ingerindo apenas sementes de maconha. Romanos e gregos usavam as fibras do caule do cânhamo para a fabricação de tecidos, papéis, cordas, palitos e óleo. As velas e cordas das caravelas portuguesas que aportaram no Brasil a partir de 1500 também eram feitas de cânhamo, assim como diversas vestimentas tradicionais de Portugal.  

Até mesmo a Bíblia de Guttemberg (Johannes Guttemberg) foi impressa em papel à base de cânhamo. O cânhamo é uma variedade de Cannabis com baixo teor de canabidióides, que são os princípios ativos da erva, conhecidos pelas siglas THC e CDB. 

Entre os intelectuais da Belle Époque, como Eugéne DelacroixVictor HugoCharles BaudelaireHonoré de Balzac e Alexandre Dumas, o haxixe, que é um subproduto da Cannabis, era muito popular. Extraoficialmente, consta que nesta época o Brasil comercializava cigarros de maconha. Será?

Como medicamento, a Cannabis foi muito usada no tratamento de prisão de ventre, cólicas menstruais, malária, reumatismos e até dores de ouvido. Com o passar do tempo, a erva foi demonizada como droga, mas resgatou suas origens medicinais e hoje é recomendada para o tratamento de diversas doenças, entre elas câncer, esclerose múltipla, esquizofrenia, demências e AIDS. Portanto, Cannabis, é uma erva com uma história polêmica, povoada de prós e contras, que ainda está muito longe do fim.  

A maconha descobriu a América

maconha foi trazida para a América do Sul pelos colonizadores espanhóis e as primeiras plantações foram feitas no Chile. No Brasil do século XVI, os escravos africanos traziam a erva escondida nas roupas, para que fossem usadas em rituais de Candomblé. Em 1783, o Império português instalou no Brasil a Real Feitoria da Linha-Cânhamo (RFLC), uma importante iniciativa oficial de cultivo de Cannabis para fins comerciais, por conta da demanda de produtos a base das fibras de cânhamo.

Historiadores e pesquisadores apontam indícios de que Portugal investiu na produção de marijuana – denominação hispânica da maconha – no Brasil. A Coroa financiou não só a introdução, mas também a adaptação climática em estados como Pará, Amazonas, Maranhão, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia. Já pensou?  

O primeiro documento oficial proibindo o uso da maconha no país data de 1830, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Uma das versões para a proibição baseava-se no argumento de que os maiores consumidores eram escravos, índios e marginais. Porém, no inicio do século XX, com a industrialização, o hábito de “fumar um baseado ou puxar um fuminho” ganhou adeptos nas regiões urbanizadas. A partir daí a droga se popularizou e as autoridades começaram a se preocupar com a repercussão de seu consumo, bem como seus efeitos “maléficos”.  

A demonização da maconha como droga no Brasil data de 1924, ano da realização da Conferência Internacional do Ópio, em Genebra, na Suíça, que reuniu representantes de 45 países para tratar da popularização do ópio no mundo. No evento, o professor Pedro José de Oliveira Pernambucano Filho fez uma declaração bombástica, de que a “maconha é mais perigosa que o ópio”. A partir de então, eclodiu uma campanha mundial de combate à Cannabis.

Só nos anos 50, o consumo da maconha voltou à cena, graças a artistas e intelectuais que defendiam seu consumo recreacional, ou seja: ela mudou de ‘status’ e passou a ser consumida por brancos e pessoas de alto nível cultural.  

Atualmente, há uma grande polêmica em torno do assunto. Países como Holanda, Bélgica, Espanha, Itália, França, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca, Austrália, Ásia, Estados Unidos e Canadá, e regiões como o Oriente Médio e alguns países da África, assim como grupos organizados e movimentos populares, defendem o uso medicinal da erva. Um deles é a Marcha da Maconha. De outro lado estão os conservadores, que argumentam que a maconha, além de ser prejudicial à saúde, é uma porta de entrada para o uso de outras drogas mais pesadas. 

Droga ou remédio?

Este é um debate que está longe do fim, mas já existem informações cientificamente comprovadas, que nos permite explorar o tema em ambas as dimensões.

O objetivo do presente artigo não é tomar partido, mas sim demonstrar que a Cannabis, assim como milhares de outras plantas exóticas existentes no planeta, tem qualidades intrínsecas que precisam ser avaliadas a partir da ciência e não do preconceito. Fato é que a natureza é pródiga em produzir matérias primas curativas, sejam elas de origem vegetal, animal ou mineral e, muitas delas provocam efeitos colaterais imprevisíveis. Até mesmo alucinógenos, como ayuhascapeyotesálviaartemísia, assim como beladonameimendro e mandrágora, que eram ervas usadas em cerimônias de bruxaria na Idade Média.

As populações indígenas do Brasil, da África, da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá ainda recorrem a produtos da natureza para o tratamento de doenças, assim como ocorre na China. A Cannabis está inserida num universo repleto de mistérios, onde as qualidades “do bem e do mal” se entrecruzam, a ponto de ser impossível saber qual delas prevalece e quando.  

A indústria da erva

Nos últimos anos assistimos a um crescimento exponencial de uma indústria vinculada à Cannabis. Entre elas está a de fármacos e cosméticos que utilizam a erva como matéria prima. Na América do Norte já é um mercado bilionário e na América do Sul é um mercado emergente, puxado pelo Uruguai, que liberou o consumo da erva em 2013. Ao contrário do que se supunha, o fato não potencializou o ‘vício’, o que tem estimulado governos de outros países a reavaliar flexibilizar as leis restritivas de consumo.  

O mundo artístico, em especial, tem aproveitado a onda para faturar com a popularização e a liberalização da Cannabis. A atriz Whoopi Goldberg está patrocinando uma linha de produtos exclusivos. O cantor canadense Justin Bieber lançou uma edição limitada de cigarros, batizada de ‘Peaches’, nome de uma de suas músicas. A cantora Beyoncé investe numa fazenda de produção de maconha e o marido, Jay Z, já fatura com a linha de cigarros da marca Monogram.

Bella Thorne, ex-estrela da Disney, é a garota-propaganda e dona da ‘Forbidden Flowers’, marca de ‘baseado’ que tem se popularizado em suas redes sociais com mais de 25 milhões de seguidores. A influenciadora Kourtney Kardashnian e as atrizes Nicole Kidman e Gwyneth Paltrow também investem em negócios vinculados à Cannabis. Até mesmo o lendário boxeador Mike Tyson entrou no jogo e está construindo um resort na Califórnia para os apreciadores da erva. E vai mais longe: quer criar uma Cannabis University.  

A indústria da Cannabis tem se mostrado tão promissora que surgiram diversos fundos de investimento em todo mundo, com foco nesta indústria emergente. Entre eles está o Stonebridge Partners, o Cannabis Ativo liderado pelo BTG Pactual e o Ingenious Vitreo Cannabis Ativo liderado pelo Banco Inter. A explicação é simples. Levantamento da consultoria Kaya Mind, especializada em inteligência de dados sobre Cannabis, estima que o mercado da erva no Brasil seja da ordem de 26 bilhões de reais, incluindo o uso medicinal, industrial e recreativo.  

Uau! Depois de tantas descobertas bem que eu gostaria de dar um ‘peguinha’, mas não rolou. Mas confesso que já usei um extrato de Cannabis – aprovado pela ANVISA – para tratar de dores musculares. Coisas da idade, sabe?  

https://prensa.li/jornalistasonline/cannabis-droga-ou-remedio/

Escrito por
Ricardo Mucci