19 de maio de 2022
Bolsonaro: frases iguais, fotos diferentes

Bolsonaro: frases iguais, fotos diferentes

Imagens: Orlando Brito

Dia de cloroquina 

O Presidente Jair Bolsonaro é useiro e vezeiro em dizer a mesma coisa em seus discursos. Não foi diferente nas vezes em que foi ao microfone na semana passada.

Na quinta-feira, duas cerimônias. Pela manhã, para comemorar o Dia Internacional Contra a Corrupção. Estavam lá no segundo andar do Planalto, os três generais que fazem parte de seu gabinete no palácio, Augusto HelenoLuiz Ramos e Braga Netto. E outros ministros, Paulo GuedesMarcelo QueirogaOnyx LorenzoniJoão RomaGilson Ribeiro. Na plateia, os deputados Eduardo Bolsonaro e Daniel Silveira, recém saído da prisão por detratar as instituições.

Na hora de falar, Bolsonaro variou os temas, mas basicamente disse o que frequentemente fala: que nos outros governos havia corrupção e no seu, não. Referiu-se como sempre, a si próprio. De seus tempos no quartel e na Câmara. Das tais quatro linhas da Constituição. Que seus filhos são um sucesso nas redes sociais da Internet. E também da liberdade de expressão.

Disse que as palavras ivermectina e hidroxicloroquina são agora consideradas palavrões. Logo esses dois medicamentos que, segundo ele, o protegeram contra a Covid. Por fim, mandou para a atenta plateia: 

“Quem aí já tomou cloroquina, levanta a mão.”

A resposta veio pelo gesto. Confira na foto. 

Quase Natal

À tarde, agenda fechada: Cantata de Natal. Estavam lá convidados da primeira-dama Michelle. E também um grupo de jovens integrantes da Ordem da Igreja Católica Apostólica Romana, Arautos do Evangelho. Por alguma falha do pessoal da Secom, nós jornalistas subimos para o segundo andar.

Quando os primeiros acordes do show musical religioso começaram, fomos retirados às pressas do local. Mas ainda deu tempo de fotografá-lo repetindo o mesmo gesto que faz quando está diante de pessoas que nunca o viram de perto. Com as mãos levantadas e dedos em riste para o céu.  

As medalhas de Rio Branco

Já sabemos, mas é bom repetir: o papel de um jornalista é aproximar o leitor distante dos acontecimentos que vê de perto. É o meu caso. Estou diariamente circulando tanto pela opulência da chamada seara do poder quanto pela triste realidade das ruas. Numa hora, vendo o desfile de autoridades pelos tapetes do requinte. Noutra, no fogo cruzado da polícia com a população. 

Na quarta-feira, teve festa no Itamaraty. Distribuição de medalhas.

Jair Bolsonaro foi lá. Brindou com a condecoração a própria esposa, a primeira-dama Michelle, e várias autoridades da República, entre elas o ministro da Saúde de seu governo, Marcelo Queiroga. Era começo da noite e havia pouca iluminação no térreo do Palácio Itamaraty.

Mas estavam lá mais de 300 sorridentes convidados, vestidos com capricho para a ocasião. Mulheres de longo, homens de paletó e gravata de grife. Ao som de dobrados executados pela banda militar, medalha a medalha ia sendo pendurada no pescoço ou posta na lapela dos orgulhosos agraciados a tão distinta homenagem.

Ao fim da distribuição das tais condecorações, suas excelências e os ilustres presentes subiram para o andar superior do palácio. Foram brindar no coquetel de comes e bebes tão fina ocasião na outrora respeitada casa da diplomacia brasileira.

Com acesso proibido, saí. Voltava para casa e, cinco minutos depois, a 200 metros da chique noite de gala, encontrei bem à frente do automóvel que me conduzia com Deusimar, esse senhor aí da foto. Desempregado, vendia sob a chuva pacotinhos de paçoquinha a 1 real. No peito, ao invés de medalhas, a placa com pedido de ajuda para comprar uma cesta básica para alimentar sua família. O local era o sinal de trânsito que separa os ministérios da Economia e o da Defesa.

No dia em que o Brasil ultrapassa a triste marca de 615 mil óbitos pela Covid e chora seus mortos, lembrei-me do pomposo, histórico e fatídico Baile da Ilha Fiscal, a última opulenta festa do período de Dom Pedro II à frente do comando do Brasil. 

Com empresários, palavrãozinho 

Na terça-feira, Bolsonaro foi a um evento organizado pela Confederação Nacional da Indústria com empresários de vários estados. Discursou. Repetiu os mesmo temas que aborda em outras ocasiões.

Disse novamente de suas indicações de magistrados evangélicos para o Supremo; ser contra a aprovação do marco temporal para as terras indígenas; não ter comunistas em sua equipe de governo; enalteceu a performance de seus ministros; que a titular da pasta da Agricultura é uma pequena grande mulher; criticou presidentes anteriores a ele no Planalto. 

Seguiu em sua lista repetições. Contou novamente que na II Guerra Mundial soldados feridos foram salvos porque receberam na veia água de coco ao invés da transfusão de sangue; que há nióbio a ser explorado na Amazônia; vai chegar o dia em que, no Rio Cotingo, em terras dos índios, serão construídas hidrelétricas. Falou também de fazendeiros agora poderem usar armas de fogo. Lembrou de novo que que fez viagem ao mundo árabe há poucas semanas e foi bem recebido pelos sheiks. 

E para um tema bem atual, a Covid, Bolsonaro comentou a recomendação da Anvisa para precauções aos visitantes estrangeiros ao Brasil: 

“Estamos trabalhando agora com a Anvisa, que quer fechar o espaço aéreo. De novo, porra? De novo vai começar esse negócio? Ah, o ômicron, vai ter um montão de vírus e pela frente, um montão de variante pela frente.”

https://prensa.li/jornalistasonline/bolsonaro-frases-iguais-fotos-diferentes/

Escrito por
Orlando Brito