19 de maio de 2022
“Alô, aqui é o Gil.”

“Alô, aqui é o Gil.”

Acervo autora

Seria apenas mais um telefonema, mas do outro lado da linha estava Gilberto Gil

Nos anos 90, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho tornou-se um símbolo ao liderar a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Na época, 32 milhões de pessoas passavam fome no Brasil e entre as ações para arrecadação de alimentos estava uma série de shows musicais. Um dos mais importantes aconteceu em agosto de 1993, no Memorial da América Latina. Entre os artistas convidados estavam Gilberto Gil e Caetano Veloso que também comemoravam os 25 anos da Tropicália. 

Na FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação realizávamos o TV Escola, um dos projetos dos quais mais me orgulho na minha trajetória profissional. E neste dia, quando aconteceria o show, minha missão era agendar uma entrevista com o Gilberto Gil, antes que ele retornasse ao Rio de Janeiro.

Esqueça da internet e do celular. Lá em 1993, a tecnologia era para poucos e o jeito era se virar com a comunicação via rádio, com o telefone fixo ou ir pessoalmente mesmo. E assim foi feito, inúmeras ligações para o telefone fixo do Memorial e nada de retorno. O artista tinha saído, estava no banheiro, estava no ensaio, tinha ido embora para o Hotel. Deixei com quem me atendeu meu número de telefone fixo e resolvi tentar a sorte pessoalmente, fui para o local do evento e novos desencontros. 

Alguém deu a dica, os artistas estavam hospedados no Maksoud. O hotel era um ícone da época, mas uma espécie de fortaleza para impedir os fãs mais afoitos. Com muito custo me identifiquei como jornalista, mas Gil não estava no hotel. 

Mais uma vez, de volta ao Memorial. 

O show já havia começado, não havia mais o que fazer, a não ser me emocionar com as canções de Gil, Caetano, Djavan, Chico e tantos outros artistas. Na ocasião, foram arrecadadas 9 toneladas de alimentos. 

Ao chegar em casa, chateada por não ter conseguido fazer o contato, encontro minha mãe eufórica: “filha, atendi uma ligação, era pra você e quando perguntei quem queria falar a pessoa respondeu: Aqui é Gil”

Ele não só retornou a ligação, como bateu o maior papo com a minha mãe e deixou o telefone direto do seu quarto no Maksoud. No dia seguinte, estávamos lá, no Maksoud gravando uma maravilhosa entrevista sobre os 25 anos da Tropicália. E assim que eu cheguei pra a gravação e me identifiquei, ele me deu aquele abraço e disparou: “ontem falei com sua mãe”. Depois desse momento, ainda tive muitas oportunidades de estar com Gil em eventos e novas entrevistas. Mas essa história ficará pra sempre, lembranças do artista que agora também é imortal.

https://www.musicasdonordeste.net/2021/01/caetano-veloso-gilberto-gil-tropicalia.html

Escrito por
Sylvia Jardim