19 de maio de 2022
A negação da ética

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A negação da ética

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O artigo intitulado “A Chaga do Fascismo”, publicado neste canal, produziu nas redes sociais um fenômeno interessante para quem aprecia a análise de textos.

Pessoas engajadas no processo político há muitos anos, com um histórico de posições progressistas, manifestaram opiniões claramente pessimistas sobre a perspectiva de o Brasil reencontrar o caminho da democracia e, sob um governo respeitador das instituições, reconstruir o arcabouço da República, inegavelmente abalado pelo atual governo. 

Esse registro, apesar de não ter a pretensão de uma pesquisa ou de um estudo mesmo que superficial, deve ser observado ao longo dos meses que ainda temos de atravessar até a realização de novas eleições. Pelo simples fato de que seria sensato esperar de indivíduos progressistas mais confiança na capacidade da sociedade de se recompor, não uma manifestação de descrença na dinâmica social e – no extremo – sintoma de niilismo.

Niilismo é cinismo

O fenômeno se torna ainda mais curioso porque as pessoas que expressaram esse estado de espírito derrotista são, quase todas, viventes com experiência de ativismo durante o período mais brutal da ditadura militar. Além disso, foram testemunhas críticas da queda de qualidade nos debates públicos da imprensa sobre política, economia e cultura, a partir da última década do século passado. 

Esse debate, fortemente influenciado por um viés niilista implantado nas redações brasileiras, com origem na Folha de S. Paulo e sob inspiração de seu diretor, o advogado e cientista social Otávio Frias Filho, falecido em agosto de 2018, definiu uma nova narrativa da imprensa. Frias era leitor consistente de Friedrich Nietzsche, mas os editores que levaram adiante o novo projeto do jornal, nem tanto. 

Dessa leitura ligeira resultou o jornalismo que se propunha múltiplo, negacionista do papel das ideologias e pretensamente equidistante das paixões políticas. Na realidade, produziu-se um jornalismo cínico – elástico e tolerante no comportamento, mas conservador na política, reacionário em economia, oportunista na cultura e irresponsável na ética. 

São inúmeros os exemplos, analisados pontualmente em artigos de observadores da imprensa, de como se foi impingindo na opinião pública um enorme “foda-se” conceitual, em torno da ideia de uma pós-modernidade de fato impossível numa sociedade medieval como a nossa.

Quando muito, uma sociedade desigual e majoritariamente distante da modernidade, como a brasileira, poderia abrigar ilhas de pós-modernismo – no sentido de um movimento de elites em direção à contemporaneidade de sociedades mais avançadas. Falar em pós-modernidade onde metade da população vive da mão para a boca é a manifestação cínica do niilismo. 

O centralismo marginal 

Não há como contestar a responsabilidade desse niilismo enviesado no processo de degradação da democracia no Brasil, seja através da espetacularização de fatos, boatos e suposições na Operação Lava-Jato (demonstrados e punidos, em parte, pelo Supremo Tribunal Federal), seja na omissão e tolerância (e também da ação direta) que produziram a ascensão do capitão reformado Jair Bolsonaro, de seu covil obscuro à cadeira de presidente da República. 

Esse movimento da mídia hegemônica transformou em qualidade a excentricidade, ou seja, a prática de se posicionar “fora do centro”, em atitude supostamente marginal, o que na verdade, transforma essa excentricidade em ideologia política, cultural e econômica.

Essa concepção de pós-modernidade associada ao niilismo de butique só poderia induzir, como ocorreu, a uma concepção de História sem compromisso com o processo civilizatório, e à própria negação de tal processo, como se a História ocorresse numa sucessão de rupturas, como uma série em que cada novo episódio anulasse o significado do episódio anterior. 

A última trincheira 

Esse foi o fundamento conceitual que pavimentou o caminho do fascismo até o poder. O niilismo produziu a alienação crítica, a fantasia ideológica, que por seu lado alimentou a onda de meias verdades e mentiras inteiras introduzidas no noticiário; essas fake news dominaram o espaço público, gerando a alucinação interpretativa da realidade que se tornou fenômeno de massa – ou, seria melhor dizer, de horda.  

Desse modo, a negação da ideologia gerou uma nova ideologia, uma visão de mundo que prescinde da visão mesma, renega os signos da realidade e os interpreta à conveniência do seu núcleo niilista. 

Testemunhamos, então, a sacralização da irresponsabilidade como virtude, dissimulada em fantasias de liberdades individuais – “sim, sou livre para não me vacinar, sou livre para desejar o armagedom”. Há uma conexão direta entre o colunista que tenta ridicularizar os jovens que ainda alimentam utopias (chamando-os ironicamente de “inteligentinhos”) e a quantidade de pessoas que negam os valores do conhecimento científico. 

No fim do caminho, instala-se essa deturpação do pensamento de Nietzsche que sub-repticiamente propõe a depreciação do valor moral associado à civilização moderna – exatamente como ocorreu no nazismo. Na verdade, o legado de Nietzsche foi apropriado após sua morte por sua irmã, Elisabeth Foerster-Nietzsche, antissemita e adepta do nazismo, que transmitiu pessoalmente a Hitler uma versão deturpada de suas reflexões. 

Em seu universo tosco e iletrado, Jair Bolsonaro representa o ponto final desse processo, e a resistência a seus avanços sobre as conquistas da civilização entre nós exige compreender de onde vem a ideologia que lhe dá uma expressão política. O fascismo nasce do niilismo, da negação da ética que deve acompanhar todas as escolhas humanas.  

Lembrando García Marquez, “como el zumbido al moscardón”. Não, cara amiga decepcionada. Sua geração não falhou na defesa dos valores civilizatórios. O papel da sua geração tem sido cumprido com o rigor desesperado da última trincheira. Nada terá sido em vão.

https://prensa.li/jornalistasonline/a-negacao-da-etica/

Escrito por
Luciano Martins Costa