19 de maio de 2022
A Filha Perdida

A Filha Perdida

A Filha Perdida

Divulgação – via IMDB

Como um produto de ficção pode mexer tanto com as pessoas? O cinema, mais uma vez, escancara a discussão sobre temas que ainda são controversos pra muita gente: a maternidade real e o abandono de crianças.   

Na História do Brasil há pouco ou quase nada escrito sobre as crianças abandonadas. Segundo dados recentes do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento – SNA e disponibilizados pelo Conselho Nacional de Justiça, pelo menos oito crianças são abandonadas por dia no Brasil. São mães que não puderam ou não quiseram criar seus filhos. A miséria é o principal motivo, dito por algumas mães, para o abandono de bebês. Muitos recém-nascidos são deixados no lixo, em igrejas ou nos hospitais, pouco tempo após o nascimento.  

Mas o que leva uma mãe a abandonar a própria cria?  

As respostas são diversas e amplas e podem ser lidas em trabalhos de psicólogos ou biólogos comportamentais. Um desses trabalhos é o da socióloga e psicanalista Nancy Chodorow. Em seu livro The Reproduction of Mothering (1978; 2ª ed., 1999) e lançado no Brasil como Psicanálise da Maternidade, Chodorow vê a maternidade como uma estrutura dual e explica que o processo de uma mulher se tornar mãe vai além da biologia e do instinto.

Para Sarah Blaffer Hrdy, antropóloga e professora emérita na Universidade da Califórnia que escreveu o livro Mãe natureza – uma visão feminina da evolução: maternidade, filhos e seleção natural, de 2001, o instinto materno, aquela suposta atitude programada feminina, não existe. 

Polêmicas à parte, antes da atual década, o cinema e a televisão dificilmente retratavam a maternidade com realismo. 

Um bom exemplo é o filme Tully (2018) estrelado por Charlize Theron. O longa do diretor Jason Reitman revela o esgotamento materno. Marlo (Charlize) é mãe de três filhos, sendo um recém-nascido, e vive sem ânimo, imersa numa rotina desgastante. À beira da depressão pós-parto, ela ganha a ajuda de uma babá para enfrentar essa fase difícil. 

A Maternidade Real exposta pra quem quiser ver e aprender

Em tempos de rede sociais, a vida real pode ser vista e acompanhada pela internet. Mulheres mães usam suas contas para mostrar um pouco de como é a vida com crianças. A decisão de largar o trabalho e a carreira para cuidar dos filhos pode até parecer tarefa fácil, mas não é. Muita gente esquece de quanto complicada é essa decisão para a mulher.

Foi exatamente por isso que um post feito pela norte-americana Bridgette Anne, em 30 de janeiro de 2021, viralizou no FB. Ela postou uma foto chorando e fez um desabafo sobre a maternidade. “Todo mundo pensa que ser mãe em tempo integral em casa é fácil, que temos sorte de não ter que trabalhar, que somos preguiçosas, que não é um trabalho ‘real’, então não temos nada a reclamar. Mas a verdade é que é solitário e sufocante.” 

Por outro lado, há quem esteja ganhando dinheiro com a exposição sobre maternar. Um dos melhores exemplos é o da ex-modelo e influenciadora Kerelin Nantes.

Ela conta que a experiência começou porque se sentia muito sozinha nos Estados Unidos, só com o marido e sem a família perto. Resolveu fazer uma espécie de diário digital para falar sobre a maternidade logo na primeira gravidez da filha Evie. Depois disso, Kerelin teve nova gestação e, dessa vez, vieram as trigêmeas (Alana, Brenda e Claire). Hoje, ela tem mais de 120 mil seguidores no Instagram, quase 50 mil no YouTube e a incrível marca de mais de um milhão no TikTok. 

Talvez o que realmente atraia tantas pessoas seja a realidade que aparece nas postagens. Mostrar, sem filtro, as alegrias, problemas e o cotidiano da vida com filhos parece provocar uma cumplicidade entre as mulheres do mundo todo. Uma identificação com outras mães em busca de solidariedade, afeto e afagos, mesmo que seja através de uma tela.  

Quem é a Mulher Perdida?

Divulgação – via IMDB

No caso do longa-metragem A Filha Perdida dirigido por Maggie Gyllenhaal, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza e um dos últimos filmes lançados no streaming em 2021, a discussão sobre a maternidade aparece logo de cara. O longa é uma adaptação do livro homônimo de Elena Ferrante (2006) e tem merecido críticas no velho estilo ame ou odeie.  

A história mostra uma professora universitária que está passando férias de verão numa praia da Grécia. Um primeiro olhar da personagem revela que ela é solitária e que está em busca de um pouco de paz, mas essa paz que Leda (Olivia Colman) procura é ameaçada quando ela começa a observar Nina (Dakota Johnson) e sua filha Elena (Athena Martin).  

O filme ainda utiliza flashbacks para contar um pouco sobre a relação de Leda com sua família. A trama traz à tona a relação difícil entre ela e as duas filhas, já adultas, e que só aparecem como crianças no longa. Além disso, expõe a maternidade como uma experiência extremamente solitária, intensa, difícil e bem longe da versão romantizada que muita gente possui dela. 

Talvez por isso o filme tenha incomodado muita gente. Quem se atreve a falar mal da maternidade, a enxergar as mulheres como seres humanos e não divinos quando carregam suas enormes barrigas aqui e acolá?  

Por que ainda somos estimuladas a brincar de bonecas numa espécie de treino para a maternidade?  

Quando vivenciamos a maternidade de verdade é que percebemos a responsabilidade, o sacrifício, a anulação, o cansaço que vem junto de tudo isso. Algumas mulheres nem sempre estão prontas pra isso. 

E não há mal algum em admitir isso. Por que, mesmo com toda onda feminista, ainda há homens e mulheres que não encaram como natural, e não entendem, essa exaustão em ser mãe?  

Que cobrança é essa da qual as mulheres ainda não conseguiram se libertar? Já brigamos para votar, por espaço no mercado de trabalho, por cargos de CEO, por melhores salários, por respeito. Então, por que ainda só enxergamos o lado bom da maternidade?  

Será que não podemos falar sobre as dúvidas na criação dos filhos, sobre os medos? Ou sobre a vigilância eterna das crianças, mesmo quando já são adultos?  

E sobre a falta de tempo e liberdade? É isso o que nos espera quando estamos esperando?  

Você sente como se não fosse uma boa mãe e é uma culpa que você sempre carrega, nunca vai embora e você se pergunta se eles sabem. 

A Filha Perdida é um convite à reflexão sobre “as regras” da maternidade e como isso impacta meninas e mulheres. 

Assista ao filme. Leia o livro e pense. A arte é pra isso. Goste ou desgoste. A Filha Perdida está disponível na Netflix.

https://prensa.li/jornalistasonline/a-filha-perdida/

Escrito por
Márcia Nepomuceno