25 de maio de 2022
A chaga do fascismo

A chaga do fascismo

A chaga do fascismo

Robert Klank – @designer_magdeburg – via Unsplash

Os analistas de política da mídia hegemônica se esforçam para preencher com alguma racionalidade o ambiente insano e tóxico fertilizado pela agenda destrutiva do governo federal. Ainda respaldado pelo imediatismo do Centrão e garantido pela ambição subalterna do procurador-geral da República, Augusto Aras, Jair Bolsonaro segue seu curso desvairado, cujo único propósito reconhecível é a erosão da democracia, obcecado pelo sonho de se reeleger.

Acontece que a análise racional não dá conta de estabelecer parâmetros entre o que para muitos parece loucura e os padrões de reflexão que os jornalistas estudam nas faculdades e apreendem no exercício da profissão. Para entender Bolsonaro e o sistema que o mantém no poder seria preciso dar conta de um universo amplo e complexo, tarefa difícil no contexto do jornalismo.

Mesmo que tivéssemos uma imprensa capaz dessa profundidade e equidistante o suficiente dos interesses em jogo, seria necessário contar com a disposição de um grande número de leitores com tempo, qualificação e espírito aberto para propor essa necessária análise. Acontece que são poucos os jornalistas que realmente estudam e compreendem a teoria da complexidade, arcabouço essencial para esse mister.

Radiografia do fascismo

Em 2019, pouco depois da posse de Bolsonaro, o SESC – Serviço Social do Comércio, organizou palestras e debates, sob a curadoria do pensador Adauto Novaes, para analisar o processo de deterioração da democracia no Ocidente, com atenção especial ao Brasil, pela observação de suas instituições fundamentais (você pode assistir os vídeos das palestras aqui). Não as instituições do Estado, mas as confrarias sociais, aquelas que provêm de senso crítico a sociedade e oferecem subsídios para a compreensão dos nossos dilemas.

Nesses registros se pode encontrar, sob o signo de uma premonição fundamentada em boas teorias, o que é o fascismo capitaneado por Bolsonaro.

Com o título geral “Ainda sob a tempestade” ali se encontra, por exemplo, um debate sobre o que seria o regime inaugurado com as eleições de 2018. Fascismo? Neofascismo? Protofascismo?

Independentemente dos rótulos, a maioria dos participantes, entre os quais algumas das mentes mais brilhantes da filosofia, da sociologia, e da psicanálise no Brasil e na França, conseguiram se aproximar do que viria a ser esse desastre em que estamos imersos.

Com o tempo, o quadro que pintaram se transformou em um ambiente tridimensional, onde experimentamos diariamente o que é viver sob o fascismo contemporâneo. Sim, porque certamente nenhum daqueles intelectuais que há poucos anos vislumbravam a tempestade dúvida de que no Brasil se desenvolve um projeto fascista de poder.

Depredação do Estado

Mas a questão deixa de ser o diagnóstico. O próprio presidente da República e seus asseclas fazem questão de fornecer as demonstrações de seu propósito. A questão agora é a cura: como o Brasil irá tratar as sequelas desse mal, se e quando as milícias fascistas forem varridas das instituições do Estado e das entidades representativas da sociedade?

O fascismo não pode ser tratado como um incidente histórico e esse tem sido o erro principal das forças progressistas, que em graus variados se aproximam dos ideais civilizatórios. O fascismo, em sua versão histórica ou contemporânea, é sempre resultado de uma obra planejada, cujas raízes, recursos e energia brotam de um projeto econômico. No fascismo histórico, tratava-se de preservar ou restaurar os interesses das oligarquias. Por trás do fascismo contemporâneo campeia o plano neoliberal de assaltar o Estado para dar ao capital excessivamente líquido novos objetos de exploração.

Isso não quer dizer que tudo deva girar em torno do Estado, e esse também tem sido um ponto de discórdia entre as correntes progressistas. O que há a se fazer é interromper esse círculo perverso pelo qual o chefe do governo distrai a atenção pública enquanto seus parceiros depredam o patrimônio público.

Depois das urnas

Aqueles que celebram estatísticas que supostamente apontam para um ponto final desse governo nas eleições deste ano esquecem ou ignoram o que há por trás dessa máquina de demolição.

O fascismo é uma infecção que se vale da fragilidade do sistema imunológico da democracia para atacá-la de dentro e, no interior do organismo, destruir seus fundamentos, alterar suas características genéticas. O fascismo não é liberal, apesar de servir a esse aglomerado de platitudes que alguns colunistas espalham pela imprensa hegemônica, mas muitas das chamadas forças liberais aproveitam para ganhar o quanto se possa.

A perspectiva de uma vitória eleitoral de uma chapa antifascista em outubro e as celebrações prometidas nas redes sociais não devem ocultar o fato de que em quatro anos de desgoverno tem sido possível minar profundamente não apenas as instituições públicas, mas o etos nacional.

O fascismo feriu gravemente a sociedade brasileira com o veneno das mentiras travestidas de meias verdades dogmáticas.

O fascismo contamina o organismo social com os demônios da violência e da intolerância. O Brasil vai provavelmente precisar de mais de uma década para recuperar suas instituições, a economia, as normas legais e a própria Constituição. Mas a principal tarefa, depois de extraído esse tumor do governo, será limpar da sociedade o espírito maléfico que por aqui se instalou.

https://prensa.li/jornalistasonline/a-chaga-do-fascismo/

Escrito por
Luciano Martins Costa