20 de maio de 2022
A audiência “INFIEL” – Final

A audiência “INFIEL” – Final

Iê, Iê  (audiência) infiel, agora  vai fazer o meu papel

      Daqui um tempo você  vai se acostumar .. E aí vai ver quem vai se  enganar “

O Fantástico Show da Vida abre com um texto de Pedro Bial, o homem das letrinhas do plimplim convocado às pressas e que, por sinal, já tinha encerrado o programa anterior com uma tonelada de texto, junto com meia dúzia de escritores famosos.  Festa do ilustra VT.

Tudo de arrancar lágrimas no mais cético telespectador. 

Desde que o Domingão virou viúvo do Faustão nunca mais tinha tido 25 pontos em sua transição para o Fantástico. Lacrou.

Mesmo assim, embora o esforço de todas as emissoras em fidelizar e capturar sua audiência à unha, os pedacinhos de notícia e informação vão se amontando na cabeça do telespectador. Ele vai clicando, zapeando, e permanecendo onde a lacração é maior. Onde o grupo aprova, onde seus pares se encontram e interagem.

– Onde dá “match” de almas solidárias.

Ninguém mais fica ali na Tv aberta, inerte.

Todos voam, vão e vem, aceleram a audiência e digitam compulsivamente em seus aplicativos. E viram os canais do avesso em busca do melhor ângulo, quem sabe um take mais fechado, um detalhe dos corpos dos passageiros em resgate, algo escondido atrás de lençóis dos bombeiros. 

E o patético espetáculo da notícia continua, madrugada afora.  Marília morre várias vezes, em várias plataformas.  E a trilha” infiel”vai se emoldurando em tudo. Para acompanhar foto do filho, depoimento da mãe, rosto do ex-marido, servir de cama de fundo para ida e volta do comercial.

E a máquina de moer gente da comunicação moderna está disparada.

 O Frenesi comunicadológico vira doença a ponto extremo de exibirem a última sombra do avião passando pelos campos antes se enroscar nas torres de alta tensão e mergulhar no solo.

O último café de Marília , a última refeição ainda a bordo,  o último, abraço no filho ,a última mensagem dos fãs, o último xixi. Tudo vira pauta.

Em tempos digitais, bem diferente do que aconteceu com o desaparecimento de Ayrton Senna ou Elis Regina criou-se uma “patrulha do luto. 

Os artistas são convidados para darem seus depoimentos, mas são  instantaneamente  criticados pela forma como reagem à morte da cantora.

-Sorriu demais, sorriu pouco, chorou muito, vestiu preto, vestiu branco E  o pau come solto na internet. 

Aqueles que nunca ouviram falar de Marília, de sua breve existência de 20 poucos anos são publicamente massacrados em sua ignorância alienada e julgados ao cadafalso supremo do cancelamento.

Especialistas em saúde mental ouvidos por este jornalista explicam que a “fiscalização” ou a “patrulha do luto alheio” é um desserviço – pois cada um vive a perda à sua própria maneira. Em resumo: o importante, mesmo, é cuidar da própria vida.

Para os estudiosos de comunicação fica a amarga lição de que o público atual por mais dedicado que seja ao seu ídolo cada vez mais vai em busca de seu papel espetaculoso e lacrador, sem se preocupar muito com a fonte, a fidelidade da verdade ou os fatos consolidados. 

A música e a realidade novamente se fundem. E cada um  “vai fazer no palco o seu papel”.

Que pena.! RIP – Rest In Peace MM.

Escrito por
Carlos Kober